Rui Veloso - Bairro do Oriente

" Desculpa se esta foi a forma que encontrei de te dizer que parti. Sim, parti, não fugi ou pretendo esconder-me, nada disso. aconteceu-me uma coisa extraordinária ontem, nem vais acreditar. Sabes a feira de antiguidades que costuma estar de vez em quando na baixa? Olha, resolvi dar uma vista de olhos e encontrei um objecto muito interessante - uma lamparina. Lembrei-me logo do génio e, como estava mesmo a precisar de que uns desejos cá dos meus se cumprissem e o preço era bastante acessível, resolvi comprá-la. Até aqui tudo normal, mas cheguei a casa e, como estava muito suja, resolvi ir limpá-la com aqueles produtos próprios para limpar cobres, mesmo que eu não soubesse se aquilo era cobre ou não, resolvi arriscar. E não é que resultou, comecei a vê-la ficar bem brilhante e então uma coisa fantástica aconteceu. Primeiro pensei que estava a sonhar, esfreguei por várias vezes os olhos, mas era verdade. ali à minha frente encontrava-se um génio. Não te rias, é verdade! Não era um génio como aqueles que estamos habituados a imaginar ou até mesmo a ver nos filmes do Aladino, mas ainda assim era um génio. 
Sorriu perante o meu ar de espanto e disse-me que não estivesse nervosa. Agradeceu-me por tê-lo libertado, que se encontrava há muitos anos preso dentro da lamparina, tantos que já nem se lembrava. Como recompensa pelo meu feito disse-me que me ia conceder uma oportunidade única na vida. Por aquela altura já eu tinha recuperado do choque e me tinha habituado à ideia de ter um génio saído de uma lamparina mágica a falar comigo, como tal, ainda barafustei porque todos os génios que eu conhecia concediam 3 desejos e eu afinal só ia ter uma recompensa e ainda assim não era eu que a escolhia, não estava a achar aquilo nada justo.
Ele riu-se perante a minha indignação e disse-me: " Com a oportunidade que eu te vou dar vais com toda a certeza cumprir muito mais que 3 desejos apenas." Bom, com aquela afirmação comecei de facto a ficar curiosa e também algo impaciente, pedi-lhe que me contasse então de que se tratava. Então, e agora é que não vais mesmo acreditar, ele disse que me concedia a possibilidade de mudar a minha vida! - Pensa bem em como fazê-lo - disse-me, e desapareceu logo de seguida.
Fiquei completamente imóvel sem saber o que pensar de tudo aquilo mas ao mesmo tempo com imensas ideias já a correr no meu cérebro a uma velocidade estonteante. Era a oportunidade da minha vida e, essencialmente, de mudá-la!
Foi assim e depois de tudo o que te contei que tomei esta decisão. Vou para África, ou melhor, há hora que estás a ler esta carta já fui, não tinha coragem para me despedir de ti, não ia aguentar a tristeza, a tua e a minha. Tu sabes da minha ligação àquele continente e por isso sei que não estás a estranhar nem vais ficar zangado. Vou dedicar-me às crianças dos países que eles chamam em vias de desenvolvimento, principalmente Angola, e aliar isso à minha paixão pela arqueologia. Vou tentar viver com o mínimo, mas com o essencial (para os nossos padrões europeus), vou fazer investigação e vou cuidar de quem precisa, vou poder fazer tudo isso sem a preocupação da escassez de recursos, pois ao me proporcionar a mudança de vida o génio também me proporcionou a possibilidade de eu ter sempre dinheiro, e de tirar o melhor partido dele, como ele bem disse, esta recompensa iria proporcionar-me cumprir muitos dos meus desejos e não apenas 3. Já sei que estás a pensar que eu poderia ter optado por uma vida de dondoca, mas desculpa-me, não seria feliz assim. Preciso de um pouco de aventura, de adrenalina, de fazer bem, de viver... 
Porém, existe um último desejo meu, que vive no profundo do meu Ser,  que não depende de mim, ou da oportunidade que me concedeu o génio, depende unicamente de ti, meu amor. Junta-te a mim porque eu sei que também tu sonhas com uma vida diferente, vem ter comigo e juntos vamos tornar o mundo um sítio melhor para viver...

Tua
Cláudia"


[2011/11/13]

Posted by Picasa

Embondeiro por Fernando Lusbelo

Leonor passara toda a sua infância revoltada contra o país que a viu nascer. Na sua infantil genuinidade, também esta revolta, esta raiva, saiam bem do seu âmago, bem do mais profundo do seu ser. Leonor nasceu em Angola, em meados dos anos setenta. Viu, sem saber ler nem escrever, os seus pais e os pais de tantos outros meninos e meninas serem despojados de toda uma vida, de tudo o que haviam construído de raiz num país que diziam ser também Portugal, mas que distava alguns milhares de quilómetros, e onde os horizontes eram distantes, a terra era vermelha e as árvores parecia terem nascido de pernas para o ar, ou melhor, de raízes para o ar – os imponentes e maravilhosos Embondeiros. Tudo o que interessava a Leonor saber naqueles tempos, era aquela, que para ela era uma verdade insofismável! – Angola tratara mal aqueles que tanto a amavam. O coração de Leonor sentia-se impotente para perdoar tamanha maldade, tamanha injustiça. Leonor era pequenina demais para perceber que a culpa não era daquele enorme país, mas sim da mesquinhez e ganância dos Homens, ganância pelo poder a todo o custo. Cresceu numa infância ausente de pai, porque mais uma vez, África, agora ela transportava já a sua crescente raiva para todo o continente africano, lhe subtraía a presença de seu pai, que nunca se adaptou à metrópole. Parecia correr-lhe nas veias sangue africano, embora nascido fosse numa aldeia de Trás-os-Montes. Qualquer referência da mãe, ou do pai aquando das suas rotações por Portugal, a um possível regresso a Angola se a situação estabilizasse, produzia em Leonor um turbilhão de sentimentos dos quais o mais positivo seria a revolta, a incompreensão! Como poderiam os seus pais, depois de tudo o que aquele país lhes causara, ainda quererem voltar. Leonor habituara-se a ouvir que Angola era mágica, e que quem bebeu a água do Bengo nunca mais se conseguiria libertar dessa magia. Mas para ela, tudo, todo o seu sentimento por aquele país permanecia imutável ou, em última análise, em crescendo de raiva. Fazia-lhe mal, revolvia-lhe o estômago, principalmente naquela fase da adolescência, o facto de sequer se equacionar um regresso, ainda mais agora que finalmente tinham conseguido alugar um pequenino apartamento e que ela já tinha os seus amigos, não podia pensar em perder tudo isso. Acompanhava os pais a uns encontros, que muitos diziam de forma pejorativa, de retornados, e detestava. Essa era também uma revolta de Leonor, como poderia ela ser rotulada de retornada se tinha nascido em Angola e a primeira vez que pisou solo da metrópole foi naquele fatídico ano de 1976! Leonor começava a perceber também como muitas pessoas podiam ser tão pequenas de espírito. Mais tarde, viria a responder a essa pequenez com uma frase de Fernando Pessoa: “porque eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura”, e Leonor via em grande, em grandeza de alma.
A determinada altura do seu processo de crescimento, Leonor deparou-se interiormente com uma questão que a exaltava: porque seria que tanta gente, e não só seus pais e familiares, nutriam um amor tão imenso por aquele país!? Agora, a raiva que se tinha acomodado sem pedir licença no seu coração, vacilava. Ou melhor, pela primeira vez não a ruborizava nem lhe trazia lágrimas aos olhos, lágrimas essas que ainda hoje verte sempre que vê imagens sobre a descolonização, não – pela primeira vez, de uma forma mais ou menos pacífica Leonor se questionava sobre o assunto. Tomou então uma decisão, veiculada por aquele sentimento corrosivo que tantos anos carregara dentro de si – tinha de ir sentir in loco. Ela tinha de ir a Angola! Não seria de ignorar tamanho sinal que saía de dentro de si, ela sentia que, assim que pisasse a Terra da terra vermelha, todas as respostas que buscava lhe surgiriam naturalmente.
Envidou todos os esforços no sentido de tornar realidade a sua determinação, aquele que se tinha tornado em pouco tempo o seu maior sonho, a sua maior ambição – conhecer o país que a viu nascer mas que não lhe deu a possibilidade de lá crescer – ou talvez, e melhor dizendo, que não teve a oportunidade de a ver crescer. Muitas burocracias precisariam de ser ultrapassadas, mas em virtude do seu pai ter conseguido obter numa das suas viagens à cidade onde viviam, uma certidão de nascimento que depois de devidamente autenticada pelas entidades competentes lhe foi valiosa para a obtenção do passaporte Angolano com o qual arrepiaria caminho no processo de preparação da viagem. O motor para toda esta entrega ao seu sonho era aquela raiva que, ainda que agora sentida de uma outra forma, não deixara ainda de ser raiva, e Leonor sorria ao pensar como um sentimento tão negativo podia dar origem a algo tão positivo! Mesmo que desta viagem Leonor trouxesse apenas certezas para a sua raiva, ainda assim teria valido a pena, porque teria uma maior base de sustentação para o próprio sentimento.
Naquele dia, Leonor que não tinha o menor medo de andar de avião, sentia uma náusea apoderar-se do seu interior, sentia que o seu coração batia a trote, camuflado por uma aparente calma, sua companheira arma de defesa de toda a vida. Só Deus, e ela própria sabiam tudo o que se passava dentro dela.
Aterrou no 4 de Fevereiro, aeroporto de Luanda, naquela madrugada de Abril. Com ela levava um sem número de recomendações – tem cuidado, não andes sozinha, não bebas água que não seja engarrafada, enfim… entre tantas outras do género. À sua espera um grande amigo e aquele que seria o seu suporte logístico, e não só, nesta sua “aventura”, Rodrigo, um grande amigo angolano. Depois dos cumprimentos efusivos e saudosos, dirigiram-se à saída, entraram no jipe e atravessaram uma cidade caótica e selvática, enquanto Rodrigo lhe ia dizendo que Angola não era Luanda para que ela não entrasse em pânico.
Mas Leonor já tinha percebido. Assim que pisara aquela terra, assim que respirou fundo aquela atmosfera, assim que perdeu os sentidos naquele horizonte, Leonor percebeu. E quando, na manhã seguinte fez a sua primeira incursão pela beleza natural, quando sentiu o cheiro e a pele arrepiar-se, quando viu aquele nascer do sol, foi como se o Sol nascesse dentro dela, e o sorriso daquelas crianças com tão pouco, transformou por fim o que restava da raiva em Amor. Amor do mais puro à sua terra!


[2011/01/16]

Boa onda!!

Uma das minhas canções Africanas preferidas, aqui nesta performance espectacular, ao som das Marimbas...





E aqui... o original, brilhante! Com direito a explicação :))




Igqira lendlela nguqo ngqothwane
Igqira lendlela nguqo ngqothwane
Sebeqabele gqi thapha bathi nguqo ngqothwane
Sebeqabele gqi thapha bathi nguqo ngqothwane


[2010/09/28]

Angola 2009 colecção particular

A minha terra tem de facto uma magia que não se explica.
que se entranhou de tal forma por debaixo da nossa pele,
que talvez por termos bebido da água do Bengo
nos caracteriza e nos marca de uma forma tão especial
Magia que se traduz em sintonias tão profundas
em energias tão fortes e tão difusas
em pessoas que não conhecemos de nenhum lugar
mas que se nos revelam de uma forma tão particular.
Já me deu tantas alegrias, minha terra
e ainda não lhe pude retribuir
Espera-me Angola, não te canses de esperar
caminho no sentido de um dia lá ir.
Prometo um dia vou-te abraçar
e contigo lágrimas salgadas chorar
por amores e amizades nascidos,
de imensos respirares tão coloridos
em doces poesias e sentires
derramados nessa terra tão vermelha
onde os Embondeiros imponentes
personificam a magia Africana...


De vidas e almas, que em boa hora se cruzaram...
de tristezas, felicidades, de momentos vividos!
De muito amor, de tantas saudades
que tornam alguns dos dias... tão compridos!

Mas tudo vale sempre a pena! Obrigada Angola...

[2010/07/29]

Posted by Picasa

00:20


O meu Kissange


"Eu vou estar... nos sons dos kissanges, nas cordas d'uma viola, nos ritmos quentes de Angola"

Carlos Burity - Canção Nostalgia


Agora deixo aqui um pouco da minha veia de (quase) Antropóloga (risos)

... O que é um kissange? tirei d'aqui a seguinte explicação:

Kissange (É um instrumento de som fluido, utilizado para fazer companhia em grandes caminhadas ou como fundo musical quando um mais velho conta histórias, à volta da fogueira, ao luar. Também é chamado de Mbwetete, quando é feito à base de bambu.)

Noutras pesquisas descobri que originalmente era feito com as carapaças das tartarugas (não vale ficar com pena delas!!)

Eu tenho um!! (mas não é de carapaça não :p é mesmo madeirinha)

[2009/09/05]

Posted by Picasa


Meninos do Huambo2009

Gente buscando em vão uma esperança,
um sorriso, uma flor, uma palavra amiga
procurando agarrar hoje um tempo,
falar de amor, de carinho e de paz

Angola2009

Colher jasmim, fazer poesia com todas as letras
contar as estrelas, saudar a vida
e ver os deuses iguais a mim
Colher jasmim, fazer poesia com todas as letras
contar as estrelas, saudar a vida
e ver os deuses iguais a mim

Huambo2009

Sou um jovem como tu
Quero a vida ver sorrir
Viajar, ter amigos, ver Luanda a florir
Ver o pôr-do-sol, ver nosso país,
Tão lindo, tão lindo, tão lindo, tão LINDO
Inspirando emoções...
Angola por Fernando Lusbelo



Saudades de Angola...

[2009/09/03]
Posted by Picasa

Miradouro da Lua/Angola por Fernando Lusbelo

Ainda sobre o assunto do dia, mas de uma forma diferente!

Desta feita venho dar um exemplo que devia ser seguido por qualquer atendimento ao público, pelo menos nos serviços públicos.
O Consulado de Angola em Lisboa, é um exemplo. Um bom exemplo.

. As senhas são distribuídas por um funcionário, mediante os assuntos que se vão tratar, logo não existe o risco da pessoa tirar a senha errada, nem o desperdício de senhas com consequente impacto na estatística. Logo não há o "enganei-me na senha, não me pode atender na mesma?" do costume, ou: "então agora vai fazer-me tirar outra senha??" ...

. Não entra ninguém de boné na cabeça, ou vestido de qualquer maneira - há que haver respeito. O que à partida pode parecer um pouco de exagero, está bem visto - porque há-de haver uma norma de conduta de vestuário para os funcionários e não para os utentes dos serviços?? Nos nossos serviços públicos vemos de tudo, desde bonés a óculos escuros, calções de banho a chinelinho... qualquer dia temos de atender pessoas em tronco nú, já que o utente tem sempre razão!!

. A Sala de espera, venda de impressos, cópias e informações de carácter geral fica situada no piso inferior, onde se tiram as senhas, está a televisão e o ecrã de chamada.

. O atendimento é efectuado no primeiro andar, são chamadas duas ou três pessoas de cada vez, que só nessa altura sobem, para evitar a confusão no atendimento.

. As pessoas com prioridade no atendimento são procuradas pelos funcionários e encaminhadas pelos próprios ao local de atendimento, apenas para tratar de assuntos que lhes digam respeito.

Eu diria: Angola a dar o exemplo em termos de metodologia no atendimento. Sim, existem filas desde as 6H da manhã, espera-se bastante, mas quando precisamos de tratar de algo já sabemos que tem de ser assim! A parte de como funciona a nível burocrático fica para uma próxima oportunidade (risos)

[2009/07/13]
Posted by Picasa

Pai

15:38


Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Directamente de Norte... para Sul... Huambo/Angola

[2009/03/19]
Posted by Picasa

10:55

Labínio Almeida - Amanhecer em Luanda

Sentada no alpendre da minha vida, olhando a aurora do meu futuro...

Amanheço o meu sentir enquanto no Céu, tudo se transforma,
O crepúsculo vermelho do nascer do Sol na minha terra, eu imagino...
Posso imaginar apenas...
Mas sinto que ali, podia esperar por ti, se fosse assim,
Se eu soubesse que tardando, como o ocaso, acabarias por chegar,
E como o Sol me virias beijar, e como a dor... comigo ficar...

Mas por agora, apenas os passarinhos, felizes, me enchem o coração com os seus trinados,
E, ao longe... vislumbro a Felicidade...

Na aurora da minha vida e no alpendre do meu futuro...

[2009/03/11]
Posted by Picasa

16:02

Angola por Fernando Lusbelo


Mais um passo,
Mais um esforço,
Mais um degrau escalado,
Mais uma batalha que se trava,
Mais um Destino traçado,
Mais um objectivo buscado,
Mais um Sonho concretizado,

No compasso da longa espera,
Mais um sorriso de Alegria,

O que me esperará... no alto da escadaria??

[2009/03/05]

Posted by Picasa

19:19

Rio Lua/Angola por Fernando Lusbelo


Escuta,

Escuta a melodia da água e da natureza.
Observa a pureza do ar, cheira o aroma da terra...
Ao crepúsculo, sós.
A brisa do entardecer sussurra-me carinhos teus,
a corrente trás até mim a tua presença... sinto-te.
Fecho os meus olhos, sinto os últimos raios de Sol na minha pele,
os pés na água que me refresca corpo e alma...
Fico aqui, eu e tu, mesmo sem estares,
Tudo na Natureza me lembra de ti.
Sinto novamente as tuas mãos nos meus cabelos,
e passarem à face numa carícia...
m'arrepias...

Schhhhh... escuta... sente...

[2009/03/02]

Posted by Picasa

22:02

Angola- Fernando Lusbelo


Hoje apeteceu-me voltar a postar algo que escrevi há muitos anos atrás, lembro como se fosse hoje, para um concurso de "poesia" do Liceu. Acabou por ser escolhido para a exposição do Dia Internacional de Poesia e acabei eu própria por ter de o ler em frente de toda a turma... enfim, nem tudo é poesia :)

1991, estavamos em 1991...

"Como o vento e a terra tudo há-de acabar
o que o meu coração não aguentar, esqueceu ou deixou de amar.
Como tudo tem um FIM, a paixão morreu em mim
mas a imagem continua presente...
Agora e para sempre.
Aquela imagem de encantar
porque uma amizade nunca acaba
com a possibilidade de amar
sim... amar...

Mas de uma maneira diferente
já não quero mais chorar
mas levantar-me e seguir em frente
Enfrentar o amor, o amor e a saudade
porque amar não é só sofrer na minha idade

Amor, amar, o que será na realidade
será alegria, será dor
ou será apenas saudade
saudade...
saudade que ainda sinto
saudade que não vou esquecer
saudade que não evito e que levarei comigo até morrer...

Saudade e não só
alegria, respeito admiração
tudo o que sinto por alguém bem dentro do meu coração
Mas quando percebi, já tarde
que em toda a confusão
eu perdi... eu sofri...e algo morreu dentro de mim
Sem lágrima... sem dor... mas com AMOR

Eu descobri, que depois do que vivi
eu não consegui ser... EU
Mas nunca há-de voltar
aquele dia solitário e viril
Duma linda tarde de Abril
em que à nossa volta existia apenas uma espera
uma espera pelo dia teu... dia meu...
dia que o mundo esqueceu porque tudo acabou e nada mais existe...
sinceridade apenas

sinceridade que tarda mas não falha,
como o ingénuo primeiro espinho de uma rosa dentro de um coração pequeno
pequenino como o de um pássaro que não sabe voar porque ninguém lhe ensinou
e ninguém consegue ver o coração que não suspirou
coração que se tornou de pedra
coração que não quer viver
coração que sofre pelo amor que ACABOU..."

[2009/02/18]

Posted by Picasa

13:45

Calulo, Angola por Fernando Lusbelo


Se do alto de nós próprios
Local ermo e inatingível
Não conseguirmos ver
O que parece impossível
Então é melhor sairmos
De dentro de nós próprios
Para podermos sentir e observar
O que para outros é óbvio
E se depois em nós ficar
Uma estranha sensação
De que não fizemos tudo
Em prol do coração
Só nos resta esperar
Dar o que temos para dar
Que o tempo quanto ao resto
Tudo há-de solucionar...

[2009/01/15]

Posted by Picasa

13:08

Março/2008 Setúbal


Ah e tal... vou tentar passar despercebido...

Poisé... temos pena :p

Querido e BOM amigo "aprendiz"... Muitos anos de vida, muita saúde, muita coragem, perseverança e sempre, mas sempre muita AMIZADE !!

MUITOS PARABÉNS!!

As palavras me escapam, e não é de hoje, esta altura do ano não é a "melhor" para a inspiração, para a capacidade de expressar...

Bla bla bla, porque no que de facto é importante e interessa: ESTAMOS JUNTOS!! ... Nessa terra distante, que é também nossa e de todos quantos lhe querem bem... a nossa ANGOLA!

Tchim tchim...

[2008/12/30]

Posted by Picasa

Miradouro da Lua - Angola - Fernando Lusbelo



Uma coisa que me põe triste
É que não existia o que não existe.
(Se é que não existe, e isto é que existe!)
Há tantas coisas bonitas que não há:
Coisas que não há, gente que não há,
bichos que já houve e já não há,
livros por ler, coisas por ver,
feitos desfeitos, outros feitos por fazer,
pessoas tão boas ainda por nascer
e outras que morreram há tanto tempo!
Tantas lembranças de que não me lembro,
sítios que não sei, invenções que não invento,
gente de vidro e de vento, países por achar,
paisagens, plantas, jardins de ar,
tudo o que eu nem posso imaginar
porque se o imaginasse já existia
embora num lugar onde só eu ia...

Manuel António Pina

... E depois há aquelas coisas que temos dificuldades de entender, ou de acreditar... mas que existem sim... mesmo que só em sítios que nós conhecemos, ou que só para nós são reais... a nossa realidade ;-))

[2008/10/06]

Posted by Picasa

Praia das Miragens - Moçâmedes, Angola - Sérgio Monteiro


Pálida à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar! na escuma fria
Pela maré das àguas embalada!
Era um anjo entre nuvens de alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! O seio palpitando...
Negros olhos as pálpebras abrindo...
Formas nuas no leito resvalando...

Não te rias de mim, meu anjo lindo,
Por ti, as noites eu velei chorando,
Por ti, nos sonhos morrerei sorrindo!

Mário Estevão Lafayas, Fevereiro 2006

[2008/09/22]

Posted by Picasa

Fotografia de Graça Rodriguez


Crónica para ser lida com acompanhamento de 'kissange'

Porque é que o lugar mais belo que se recorda é o mais belo? Onde está o segredo da sua conquista? Talvez na proximidade com a felicidade ou no dom que possui a sua evocacão para ajudar a atravessar os momentos difíceis. E pode estar no despertar e adormecer de um oceano de girassóis. No descobrimento da beleza, da satisfacão e da alegría no meio da miséria e do horror.

O mais belo que vi até hoje não foi um quadro, nem um monumento, nem uma cidade, nem uma mulher, nem a pastorzinha de porcelana da minha avó Eva quando era pequeno, nem o mar, nem o terceiro minuto da aurora de que falam os poetas: o mais belo que vi até hoje foram vinte mil hectares de girassol na Baixa do Cassanje, em Angola. Saíamos antes do amanhecer e com a chegada da luz, os girassóis levantavam a cabeça, ao mesmo tempo, para Oriente, e a terra enchia-se, por inteiro, de grandes pestanas amarelas nos dois lados do caminho e recordo, numa ocasião, um grupo de macacos numa ladeira, quietos, observando-nos. Depois, cansaram-se de nós e desapareceram sob a sombra dos arbustos.

O mais belo que vi até agora foi Angola e, apesar da miséria e do horror da guerra, continuo a querê-la com um amor que não se apaga. Amo o seu cheiro e amo as suas pessoas. Talvez os momentos que tive mais próximos daquilo a que se chama felicidade tenham acontecido quando assistia a partos e resolvía os problemas que as mulheres e o meu companheiro feiticeiro (euá Kimbanda!) não eram capazes de solucionar. Quando acabava, saía da enfermaría como se ainda tivesse nas minhas mãos uma pequena vida trémula e sentia-me feliz. As mangueiras, imensas, sussurravam sobre a minha cabeça, o senhor António espreitava da cantina. É engraçado: nos momentos difíceis, a memória da Baixa do Cassanje ajuda-me. Recordo o chefe Macau (euá Muata!), e digo a mim próprio:

- "Tumama tchituamoc", que significa, em síntese, senta-te e serena.

Se fosse à janela, decerto que avistaria, mesmo em Lisboa, vinte mil hectáres de girassóis, perdendo-se da vista, as pestanas amarelas, os macacos. A incrível beleza das raparigas, a sua pele tão suave, a tía Teresa, gorda, enorme, que dirigia uma casa de putas en Marimbá, e sabia muito mais sobre a nossa condição que qualquer outra pessoa que tenha conhecido.

Euá tía Teresa!

Euá os tambores"!, pela noite na povoação de Dala, a marijuana dos ritos funerarios (euá liamba!).

Conversava com a tía Teresa ao entardecer quando sentía saudades. Às vezes oferecia-me uma das suas criadas: nunca fui capaz de aceitar. Mandava trazer uma bacia com água, sabão, uma toalha, e ambos lavávamos solenemente a cara. Um día entregou-me um frasco com pó de talco, com o propósito de me proteger do mal. E talvez me tenha protegido. E comíamos juntos moamba, essa carne de galinha ou vaca guisada com azeite de palma: ela e o Kimbanda Kindele, ou seja o médico branco. Eu que tantas vezes, em África, tive vergonha de o ser. O meu corpo tão desengonçado. Aproximava o ouvido de uma árvore e não sabía, como a tía Teresa, quem estava a chegar. Mas o chefe Kaputo pediu-me que fosse padrinho do seu filho, a maior distinção que recebi até hoje: e, por educação, nada disse sobre a minha forma de dançar. Uma velha com a brasa do cigarro no interior da sua boca apertou os meus dedos com os seus

euá Velha!

Apertou os meus dedos outra vez: estou a escrever isto com uma grande alegría, a mesma com que aos domingos de manhã fumava cachimbo de mutopa com os homens, ouvia-os falar, jogava com eles a uma espécie de gamão com pedras e olhava a jangada a atravessar o río Kambo, já sob as sombras do crepúsculo, com as luzes de Chiquita à distância. Os girassóis inclinavam a cabeça para poder dormir, os insectos voavan contra os faróis do jipe, no caminho. A fazenda de tabaco do senhor Gaspar, com as suas caveiras de hipopótamo. O senhor Gaspar sorría no interior do bigode

euá senhor Gaspar!

Sentávamo-nos na varanda

-Tumama tchituamo

E o seu papagaio, entre gritos, fazia tilintar a candeia: dava medo a obscuridade. Ali vinha a criada com a água, o sabão, a toalha. No meio da miséria e do horror havía momentos de uma satisfação enorme. Uma paz como de santo que não voltei a encontrar. O que mais amo no mundo são os girassóis da Baixa do Cassanje e eu caminhando (voando) entre eles.

Euá Velha!

aperta os meus dedos outra vez.

António Lobo Antunes

Obrigada Gina, por um dia me ter enviado esta crónica!!

[2008/09/11]

Posted by Picasa

Angola, 2005/Rio Queve

Às vezes sinto-me Foz
outras vezes sinto-me Nascente,
em queda d'água ou afluente...
Hoje...
... sinto que no meu leito
uma cheia está emergente...

... cheia de saudade...


* Um comentário meu que virou post

[2008/09/06]

Posted by Picasa

11:56

Hoje é um grande dia!

Hoje é o dia em que o país que me viu nascer vai a votos depois de 16 anos e uma experiência traumática.

Hoje é o dia em que tudo vai correr muito bem. Hoje é um dia de legitimação de poderes.

Hoje é o dia em que não me vou alongar em análises do mal e do bem. Não vou falar do que é mais fácil falar, como vejo por aí tanta gente que não sabe nada, como eu própria, a opinar, e na maioria das vezes, a criticar destrutivamente.

Eu não sei de nada, eu só sei que a minha terra merece, o seu povo merece e todos os que a amam merecem que tudo corra bem, e que esta vaga de progresso, de reabilitação, de reconstrução, esta vaga de vida ... não pare jamais de crescer.

E que nós, instalados que estamos neste cantinho à beira-mar plantado, antes de tecermos qualquer juízo de valor, possamos olhar o nosso umbigo, e ... enchermo-nos de vergonha!

ANGOLA... EU ACREDITO!!