De ter a ser...
Eu lembro-me de quando apenas tinha mãe e ainda não era. Esses tempos, não tão longínquos assim, eram bem mais fáceis, limitava-me a ter mãe e a ser filha dela. Usufruía de uma cumplicidade subliminar, disparatava como só eu sei, reclamava dos pontos de vista mais sensatos por não encaixarem no meu espírito irreverente.
Hoje sou mãe, e este é um papel muito mais difícil, porque me obriga a domar a minha irreverência, indo ao encontro, afinal, do que me dizia a minha mãe, e por outro, tenho, graças a Deus, a minha mãe para me relembrar isso mesmo!
Sempre fiz valer os meus pontos de vista e os manifestei de forma assertiva, cheia de certezas. As certezas depressa se esvaíram quando tomei pela primeira vez o meu filho nos braços: não havia volta, e agora?
Filhos não trazem livro de instruções anexo. São seres únicos, enigmáticos que vamos lentamente descodificando, até percebermos a personalidade que trazem consigo.
Educação, a mãe educa, a mãe cuida. Certo, errado? No ser mãe vale essencialmente o instinto, o instinto protector sobre um ser que durante uns anos é totalmente dependente de nós, que precisa do nosso apoio, do nosso incentivo, do nosso amor. Ser mãe é ter a capacidade de encaixar um "és a pior mãe do mundo" quando contraria um qualquer capricho, ou a capacidade de se levantar da cama às 4 da manhã para ir ouvir um "Adoro-te mãe". Ser mãe, é sorrir quando nos apetece desabar em pranto, fazer cara feia quando nos apetece rir à gargalhada da piadola do garoto. É manter a calma quando eles estão doentes e dizer que vai passar, quando eles dizem que nunca vai passar.
Ser mãe é apaixonar-se todos os dias pelo mesmo ser, é calar para proteger, é agir para proteger, é tomar cada decisão pensando em primeiro lugar no filho. Mas mais importante, ser mãe é não deixar de ser mulher, e isso também para proteger o filho.
Ser mãe, é lutar todos os dias por ser melhor, é dizer não quando é preciso e mais que isso, é manter o não até ao fim. Ser mãe é deixá-los ir, vê-los aprender a voar e depois deixá-los ir, e esse treino deve começar desde cedo...
Ser mãe é para sempre, e mais além... e é tão BOM! E ter mãe também! :)
Um Obrigada imenso para a minha ...
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João estava super entusiasmado no recreio da escola, não parava de dar gritinhos de alegria enquanto exclamava: "hoje é dia de pai, hoje é dia de pai!" Os amigos e companheiros de bola, olhavam para ele sem conseguir evitar rirem também dos disparates que João ia fazendo à medida que continuava a lenga-lenga sobre o dia de pai.
Tinha passado a manhã agitado e a professora tinha tido que chamar-lhe por variadas vezes à atenção. A determinada altura optou mesmo por pedir a João que saísse da sala de aula para lhe levar um recado a Patrícia, a funcionária da secretaria. Enquanto ia e vinha, João acalmava, e assim os colegas podiam também estar mais concentrados.
No almoço, o entusiasmo de João contrastava com a manifesta falta de apetite. Estava irrequieto, mas mais do que isso, estava inquieto. A professora já se tinha apercebido do que motivava tanto nervoso, um misto de ansiedade e alegria, hoje era dia de pai.
Alguns meninos aproximaram-se da professora para lhe manifestar que João não estava bem, só fazia e dizia disparates e ninguém podia já aturá-lo. A professora pediu-lhes para terem paciência, que o João estava a passar por um momento difícil e que ia necessitar muito da ajuda dos que realmente eram seus amigos. Três ou quatro caras de meninos e meninas de 8 anos fixaram a professora como quem procura significado para aquelas palavras. Reparando nisso, e sempre atenciosa, a professora Alice disse-lhes: - O João vai ter hoje o seu primeiro dia de pai.
- Oh professora, exclamaram alguns deles em conjunto - não é nada! O dia do pai é só em 19 de março e ainda estamos a 9. Ainda nem sequer terminamos os presentes que estamos a fazer.
A professora voltou a sorrir e pacientemente lá lhes explicou: - Não é disso que estou a falar. Hoje é o primeiro dia que o João vai ficar na casa do pai, depois da separação. Vocês sabem que os pais do João se separaram, não sabem?
- Sim, responderam em uníssono, assumindo desde logo um ar algo consternado.
- Então agora percebem a ansiedade do João?
- Sim, professora, mas é muito triste não é?
- A professora pensou por uns instantes e disse: não tem de ser triste, mas sim, para o João vai ser sempre um misto de tristeza e de entusiasmo. E daqui para a frente ele terá muitos dias de pai, talvez mais do que antes da separação, disse sorrindo.
Nesse preciso momento João acerca-se da professora e diz-lhe: - professora, dás-me um abraço?
- Claro, meu menino, vem cá. - e acolheu nos seus braços aquele menino perdido num misto de sentimentos demasiado confuso para a sua capacidade de gestão emocional. - deves estar feliz, hoje é dia de pai, disse a professora enquanto lhe piscava o olho.
E ele, tentando piscar-lhe também o olho, mas fazendo ao invés disso uma careta disse: Sim, professora, estou muito feliz! -enquanto uma lágrima lhe rolava na face...
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Não lhe conheço rosto, nem desenho na retina do meu olhar o contorno do seu corpo, se o tem. Sinto-lhe, isso sim, a presença forte, intensa do que nos traz à consciência a verdadeira importância que existe no estarmos simplesmente vivos.
Dela, ou dele, emana um aroma inebriante, misto de madeira e canela, com reminiscências de maçã. E sei que está lá sempre que eu preciso de me encontrar comigo, sempre que eu preciso de, de novo, encarrilar no rumo certo, aquele que me aproxima do simples, do verdadeiro, do naturalmente natural, do ser para além do ter.
Não falo do banco, que permanece estático por debaixo da árvore e que acolhe quem passa e busca o alento de um descanso, nem falo do arbusto que ondula ao sabor da brisa e que faz companhia ao banco.
Não falo das milhares de pessoas que por ali passam sem perceber que existe tanto mais por detrás de um simples banco de madeira de costas voltadas para o mar.
Não lhe conheço rosto e no entanto sei que é belo, ou bela, porque também não lhe conheço o género. Não lhe conheço os contornos do corpo, ou se o tem, mas sei que enche com a sua energia todo o espaço.
Não fala comigo, não me tece elogios ou procura seduzir-me com artes e manhas. Não quer nada em absoluto de mim. Convive comigo porque ao invés de lhe querer roubar o lugar e o protagonismo, limito-me a querer usufruir dele, ou dela, com o intuito de me tornar uma pessoa cada vez melhor.
Não tem nome, porque é aquilo que nós quisermos que seja. Para mim pode ser o mar, e para ti pode ser uma batucada, para mim pode ser a Lua e para ti pode ser o Sol.
Não é concreto, porque está presente no que nós escolhermos para ser nosso incentivo, nossa fonte de alma. Não tem fim, também não tem começo.
Inspira-me o que me cativa. Inspira-me tudo e todos os que me sabem ver por dentro e de dentro para fora. Diferente, não é ser musa, diferente é ser instigador de vontades e de buscas, ainda que incessantes, pelo que na verdade importa nesta vida. Diferente é despertar consciências.
Diferente és tu, que estás presente na minha vida, que permitiste que me alimentasse de ti, da tua sabedoria, dos teus ensinamentos, e em troca, apenas me pediste que te fizesse sentir, e que te desse a paz.
Musa, ou inspiração, são todos os pequenos momentos em que me emociono. Diferente é isto, a capacidade de nos emocionarmos...
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Este era um ano de grandes mudanças na vida de Carlos. Jovem adulto que teimava em não querer crescer. Era o que entre amigos se designa de "palhaço", mas sem qualquer carácter ofensivo, apenas porque era impossível não rir com o que quer que fosse que Carlos dissesse. Ainda que falando de um assunto mais sério, a forma como o fazia era só por si engraçada. Era um contador de histórias, engraçadas, ou que ele transformava em engraçadas e até de algumas desgraças nós rimos em grupo. Impossível estar-se mal disposto ao lado de Carlos.
Estava de mudança para um novo apartamento. Vivia ainda com os pais, pessoas simples, algo ingénuas, de tal forma que também elas muito engraçadas. Era domingo, e como sempre o café era o ponto de encontro. Vi entrar o Carlos com o seu ar meio alienado e sorri, o que nos traria hoje? Já vinha rindo o que motivou em nós uma enorme curiosidade.
- Então Carlos, já vi que trazes algo na manga - disse-lhe.
- Ele ria e ia dizendo - epah, os meus velhotes são o máximo - e ria que não conseguia parar.
- Mas o que foi - insistimos - já ríamos e ainda não tínhamos ouvido a história, e Carlos prosseguiu.
- Hoje começamos a mudança para o novo apartamento e eu disse à minha mãe que o elevador era inteligente e que bastava nós dizermos o andar em que morávamos que ele começava a andar.
Conhecendo a dona Cândida como conhecíamos, todos começamos logo a imaginar o que lá vinha, e Carlos continuou:
- Passei-lhe uns sacos para a mão e fiquei a vê-la dirigir-se ao elevador. quando lá entrou, ouvi-a dizer muito convicta : - sétimo esquerdo! Como o elevador não se mexia e ela continuava - Sétimo esquerdo! - Carlos ria agora que nem um perdido e todos nós com ele!
- e depois? - perguntámos.
- Depois saiu do elevador e disse-me com um ar muito triste: - está avariado, como vamos levar agora tudo até ao sétimo andar??
Pronto, foi a risada total. A partir daí o sétimo esquerdo ficou famoso. Só a dona Cândida para achar que o elevador para além de nos ouvir, ainda discernia o esquerdo do direito...
Baseado em factos reais (meados dos anos 90) e escrito para Fábrica de Histórias
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O local, a companhia... a natureza, o mar ao fundo, o céu, as estrelas por testemunhas...
Era assim que se encontravam no momento, extasiados, envolvidos no perfume um do outro e ao mesmo tempo em completa sintonia com o ambiente que os rodeava, quase sem conseguirem proferir palavra... sentiam, sentiam, sentiam... tudo se lhes entranhava na pele e na alma, desde o marulhar das ondas lá longe, à ligeira brisa que lhes tocava os corpos e trazia o aroma silvestre do local misturado com um toque de sal e a humidade própria do clima...
Sentaram-se abraçados, as costas dela no peito dele, o respirar dele junto ao ouvido dela... podiam ouvir-se os batimentos do coração... podia sentir-se o tremer da emoção... a ansiedade daqueles lábios, o desejo daquelas mãos e a entrega daqueles corpos àquela natureza e um ao outro, foi o que mais perto se conheceu em termos de perfeição, de sintonia... como se tudo fosse parte da mesma matéria, da mesma essência, um era o prolongamento do outro e não se conheciam os limites, não havia barreiras, reservas...era assim, só porque sim...
Naquela noite, as estrelas testemunharam os olhares lânguidos de amor dos dois, sem promessas, apenas aceitação, enquanto se misturavam numa alquimia perfeita de união, e nesse momento o Universo se curvou perante tamanha manifestação de Felicidade, pura, genuína... uma entrega de amor sem exigir mais nada em troca... apenas que no céu as estrelas continuem a brilhar, que lá longe o mar não deixe nunca de se espraiar na areia, que a brisa possa sempre soprar porque...
... Também, para sempre, quem amar assim, vai amar...
Este dia aconteceu meses após o afastamento. Mas a afinidade é isso mesmo, é estar para além das palavras, é recomeçar o que se deixou para trás como se nunca se tivesse partido. É não perguntar, porque basta um olhar, é não cobrar, porque o importante é sentir.
Sabiam que este encontro era apenas mais um. Mas a cada um, uma vida inteira se vivia, e num sorriso se resumiam uma imensidão de sentimentos.
Eles sabiam que o seu amor era impossível, mas não menos verdadeiro por isso. Deram-se as mãos naquele entardecer, em que harmoniosamente amaram a vida, se amaram e se eternizaram naquele local. Era o seu local, especial por todos os motivos e onde voltariam, vezes sem conta, juntos ou separados ao longo de uma vida que se mostrava demasiado longa para ser suportável...
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Sara era uma jovem mulher, bonita, com uma áurea especial em torno de si, que atraía a atenção, o interesse, ainda que não fosse nada propositado. Já há algum tempo que se havia tornado numa mulher mais triste, um desgosto amoroso tinha subtraído à sua face aquele sorriso que lhe conferia uma beleza singular. Sara perdera o brilho, sim, é isso mesmo, a beleza continuava lá, apenas vestida de uma opacidade castradora. Sara perdera todo o brilho.
Arrastava-se nos dias, completamente perdida na melancolia. Sérgio tinha sido o grande amor da sua vida, era a única certeza que trazia consigo. A decisão de ruptura tinha sido sua, e sentia-se muitas vezes apontada pelos amigos por ter permitido que aquela relação terminasse assim, mas ela tinha os seus motivos. Não havia sido de ânimo leve que naquele dia de março o tinha olhado nos olhos para lhe comunicar a sua decisão.
Sérgio ficou sem reacção, ela sabia bem que ele não iria pedir-lhe para reconsiderar. Ele sabia bem o que se passava e como ela tinha toda a razão. Pesava-lhe nos ombros a responsabilidade por uma decisão que não era sua mas que tinham sido as suas atitudes a proporcionar. Olhou-a também ele apagado, tentou esboçar um sorriso que não nasceu, e ela, completamente embaciada pelas lágrimas, fechou a mão com força e partiu...
...
O tempo foi passando, e com ele a clareza de um amor que se deitou no lixo, a falta de uma cumplicidade genuína que pairava naturalmente sobre aqueles dois caiu sobre si - a saudade apoderou-se da sua alma provocando uma dor profunda. Sérgio cresceu, mais em dois meses que em dois anos. A confiança sempre foi o alicerce mais seguro de qualquer relação e ele não tinha sido suficientemente sábio para perceber isso e traiu essa confiança por nada. Trazia em si uma tristeza invisível que lhe amargava os dias. Sabia que Sara estava bem, sabia que ela, com a sua força interior iria ficar bem, mas sabia também que perdera o brilho e o gosto pela vida. Ele também se sentia assim. Não estava orgulhoso da sua atitude e o seu tempo era agora utilizado no sentido de perceber o que poderia fazer para corrigir o que de mal tinha sido feito.
Naquele dia, Sara passeava o seu golden no parque de sempre, ele sabia que a encontraria ali. Lá ia ela, linda, porém apagada, com a trela do cão numa mão e a outra mão fechada. Todos comentavam que Sara mantinha sempre aquela mão fechada. Aproximou-se dela e ela olhou-o como sempre fizera - nos olhos. Sérgio sabia que não adiantavam grandes argumentos com Sara. Ou se ia directo ao assunto ou qualquer rodeio apenas a faria exasperar.
- Perdoa-me, meu amor.
Ela perdeu uns bons minutos analisando aquela palavra dentro dos olhos dele. Nesses minutos, toda a cumplicidade surgiu de novo, porque a energia emanada daquele olhar lhe asseguravam a veracidade do pedido. Ele não sorria, mas num instante Sara largou a trela, e o cão correu contente e livre, e a outra mão, que por cerca de dois meses se mantivera fechada, abriu-se para destrancar o sorriso e o brilho que lhe haviam faltado naquele tempo.
Que linda estava Sara agora, o seu brilho iluminava também a alma de Sérgio que deixou cair uma lágrima ao mesmo tempo que lhe beijava o sorriso e sussurrava:
- Obrigado...
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(*) "Automat" de Edward Hopper
Fim do dia - Mafalda Veiga
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Texto escrito para: Fábrica de Histórias
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... 2010.
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[2012/01/09]
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Merry Christmas - Coldplay
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Um dia vou...
... deixar de ter uma questão com esta expressão! Hoje é o dia!
Um dia escrevi assim:
Respirar fundo, e dar o primeiro passo: Acção!
Escrito para a Fábrica de Histórias incluindo um texto escrito em 2011/05/06
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