23:39


Seal - Stand by me

Faço colecção de noites. Não existe uma que seja igual à que a precedeu, são todas diferentes. Umas mais escuras, outras mais estreladas, umas são frias, outras há que são encaloradas, outras ainda são amenas. Com brisas, sem brisas, noites tristes ou com alegria, mas de uma coisa não tenho dúvidas, todas e cada uma delas são cheias de magia.
Guardo-as em frascos na minha memória, e visito-as invariavelmente nos dias mais difíceis. Tenho noites de todas as cores da paleta e de todas as emoções do meu coração, mas tenho um frasco que permanece vazio...

Amo a noite, é por ela adentro que deixo os meus dedos falarem as palavras que me nascem na alma, é pela noite adentro que faço amor sob as estrelas em cama de sonhos. O abraço da noite entra-me na epiderme e  a sua energia percorre-me as veias e aflora na pele em forma de arrepio. 

Há noites que ainda não vivi, mas que trago na minha memória como um futuro saudoso. Têm sido dias tão intensos, que tenho aproveitado para vivê-los em pleno, talvez descurando um pouco as minhas noites. Outras noites inventei-as, não gosto da rotina ou do convencional, e por isso invento noites para mim, noites que me vestem a pele à medida. 

As noites para serem perfeitas não têm de ser iguais, noite após noite, pelo contrário. As noites perfeitas são as diferentes, tal como disse no início. Existe no entanto um ingrediente indispensável para uma noite perfeita, não existe no entanto a palavra perfeita para explicar qual é esse ingrediente porque não é nada palpável, não é tangível, apenas se pode sentir. Chamar-lhe-ei: morna-aragem-que-me-enche-a-alma-e-me-faz-sentir-viva! E, atenção, não é necessário estar na rua para sentir esta aragem, eu sinto-a bem dentro das minhas quatro paredes.

Foi por uma dessas noites adentro que me chegaste, sem eu esperar. E logo aí, a noite se encheu de dourados e a aragem nasceu cá dentro de mim, permitindo que as borboletas levantassem num voo nocturno único e inimaginável, provocando dentro do mim o perfeito caos. Misto de excitação e receio recheados de uma alegria inexplicável. Desde essa especial noite, muitas outras se passaram, nem todas tão mágicas assim, houve espaço para o cinzento e para as noites chuvosas de lágrimas salgadas, fazem parte eu diria, para um crescimento e um melhor entendimento da teoria da noite.

Sabes que te amo, todas as noites, não sabes? Todas as noites, desde aquela especial noite eu te amo no meu jeito próprio de amar, e guardo o frasco vazio, na esperança, que por mais que eu queira não me abandona, de guardar uma noite que não seja só minha, mas nossa...

Fica comigo... 

Escrito para: Fábrica de Histórias

[2012/05/27]

23:46





De ter a ser...


Eu lembro-me de quando apenas tinha mãe e ainda não era. Esses tempos, não tão longínquos assim, eram bem mais fáceis, limitava-me a ter mãe e a ser filha dela. Usufruía de uma cumplicidade subliminar, disparatava como só eu sei, reclamava dos pontos de vista mais sensatos por não encaixarem no meu espírito irreverente.
Hoje sou mãe, e este é um papel muito mais difícil, porque me obriga a domar a minha irreverência, indo ao encontro, afinal, do que me dizia a minha mãe, e por outro, tenho, graças a Deus, a minha mãe para me relembrar isso mesmo!
Sempre fiz valer os meus pontos de vista e os manifestei de forma assertiva, cheia de certezas. As certezas depressa se esvaíram quando tomei pela primeira vez o meu filho nos braços: não havia volta, e agora?
Filhos não trazem livro de instruções anexo. São seres únicos, enigmáticos que vamos lentamente descodificando, até percebermos a personalidade que trazem consigo. 
Educação, a mãe educa, a mãe cuida. Certo, errado? No ser mãe vale essencialmente o instinto, o instinto protector sobre um ser que durante uns anos é totalmente dependente de nós, que precisa do nosso apoio, do nosso incentivo, do nosso amor. Ser mãe é ter a capacidade de encaixar um "és a pior mãe do mundo" quando contraria um qualquer capricho, ou a capacidade de se levantar da cama às 4 da manhã para ir ouvir um "Adoro-te mãe". Ser mãe, é sorrir quando nos apetece desabar em pranto, fazer cara feia quando nos apetece rir à gargalhada da piadola do garoto. É manter a calma quando eles estão doentes e dizer que vai passar, quando eles dizem que nunca vai passar.
Ser mãe é apaixonar-se todos os dias pelo mesmo ser, é calar para proteger, é agir para proteger, é tomar cada decisão pensando em primeiro lugar no filho. Mas mais importante, ser mãe é não deixar de ser mulher, e isso também para proteger o filho.
Ser mãe, é lutar todos os dias por ser melhor, é dizer não quando é preciso e mais que isso, é manter o não até ao fim. Ser mãe é deixá-los ir, vê-los aprender a voar e depois deixá-los ir, e esse treino deve começar desde cedo...


Ser mãe é para sempre, e mais além... e é tão BOM! E ter mãe também! :)


Um Obrigada imenso para a minha ...


Escrito para: Fábrica de Histórias


[2012/05/06]

A Torre de Babel (1563), Pieter Bruegel

Trapézio - Jorge Palma

Tristes daqueles que do alto da sua presunção julgam ter o mundo a seus pés. Vão subindo sem olhar a meios, cegos para os demais, intocáveis. Mas no fundo, na realidade, erguem castelos feitos de barro e que uma chuvada mais intensa depressa leva por terra. Pode até levar o seu tempo, mas nas construções da mais apurada engenharia, como no carácter de cada um e na forma de se relacionar com os outros, são os alicerces o ponto fundamental, a base de sustentação de um edifício, ou de uma relação. 
Humildade, palavra desconhecida de tantos e que leva tantos outros no caminho certo, embora talvez mais demorado, mais duro, mais exigente, mas tão mais compensador. Quem não conhece a humildade conhece bem o orgulho, a soberba. Querer ser bom, ou o melhor não é só por si um defeito, se houver humildade. 
Acredito por isso que tudo o que construí, e que aos olhos dos que constroem torres de Babel é nada, são os alicerces mais sólidos e não corrosíveis que a minha ingenuidade e, no entanto, perseverança, se orgulham de ter construído. Poderei não ter passado ainda dos alicerces, é verdade, mas não tenho pressa de chegar ao topo, não antes de ter aprendido a voar melhor...

Escrito para: Fábrica de Histórias

[2012/04/29]

23:33


Rosana - A fuego lento


Em abril da minha alma somos conquista e celebração.
Ressurgimos da névoa invernal, infernal, juntos. É a nossa revolução, positiva.
Crescemos, aprendemos e vivemos mais intensamente que nunca o que de nós brota de uma forma tão pura.
Como a flor de Lótus, enlevamo-nos espiritualmente e desabrochamos o nosso amor renovado nesta primavera. É mais um passo, mais um degrau que na escadaria dos afectos subimos.
Deixamos para trás a escuridão que nos ensombrou os dias, e vivemos o abril em nós. Momentos, eternos momentos de cumplicidade que renovam esperanças perdidas e reforçam os laços criados por algo maior.
Abril é cor, é vida, são todos os elementos da  natureza em convivência mais ou menos harmoniosa. Abril é sinónimo da purificação do corpo e da mente, da superação dos nossos medos, das nossas dúvidas, é um nascer ou renascer com uma beleza mais lúcida. Abril tem o som dos kissanges e as fogueiras acesas nas noites de luar num fogo lento delicioso, tem borboletas na barriga e em volta das flores, arco-íris, tesouros e andorinhas.
Abril tem amor no azul do céu, paixão no vermelho das chamas, e esperança no verde dos campos.
Abraça-me em abril da minha alma, e beija-me na melodia que nos embala, ama-me simplesmente porque …

… é abril…


[2012/04/22]

Moulin de la Galette (1889), Toulouse-Lautrec

Chico Buarque - Valsinha

Em dias que nascem sob o véu de baile, Amélia fica particularmente nervosa. Espreita pela janela com aquela curiosidade jovial de quem quer ver as damas cruzarem a praça em frenesim, umas dirigindo-se à modista e outras vindas do salão de cabeleireiro de onde saiam com algumas obras de arte na cabeça. Também ela sonhava, de algum tempo a esta parte, com o dia em que todos parariam para olhar para ela, impecavelmente vestida e discretamente penteada, mas bonita, sobretudo, muito bonita, entrando no salão de baile onde, porventura, encontraria a sua cara-metade. 
Tinha 15 anos, e Amélia era já uma jovem vistosa, mas simples. Simplesmente vistosa, naturalmente bonita. Os pais tinham-lhe prometido que a levariam assim que ela fizesse os 16 anos, numa espécie de debute, apesar de toda a gente da vila a conhecer.
Faltavam apenas duas semanas para que completasse os 16 anos e se cumprisse um sonho, hoje ainda não era o dia. Nesse sonho existia também Bruno. No entanto Amélia teria de aprender a separar os sonhos, já que não existia a mínima possibilidade de Bruno poder estar presente no salão de baile... a não ser como engraxador, talvez... 
Amélia vivia este sonho, o seu primeiro amor, completamente sozinha. Não tinha sido capaz de o confessar sequer à sua melhor amiga. Parecia-lhe algo tão íntimo, tão seu e ... tão passível de ser motivo de crítica e desdém, que não sabe se por vergonha se por pudor, não falava sobre o assunto com ninguém. Porém no seu íntimo havia uma pessoa que ela acreditava ter já percebido o seu sentimento - o próprio Bruno. Este, quando passava por ela na rua, lançava-lhe um sorriso que era de cordialidade mas que transmitia algo mais, acompanhado de um olhar especial, e ela corava sempre enquanto a mãe a puxava disfarçadamente como que dizendo que ela tinha de apressar o passo. 
Amélia pensava em tudo isto enquanto olhava do alto da sua janela sobre a praça...

Duas semanas passaram rapidamente. Agora o frenesim era pelo seu aniversário, pelo debute e pelo baile, tudo junto num só acontecimento. Sentia-se muito importante e com uma responsabilidade acrescida naquele dia. Não podia desiludir os pais, na verdade já o tinha feito ao sugerir que Bruno, o filho do sapateiro da vila, fosse convidado, mas ela não podia deixar de tentar, apesar de estar ciente de que os pais jamais permitiriam. Apesar de obediente e educada, Amélia estava também na idade de todas as descobertas, e até da descoberta das pequenas mentiras que não trariam prejuízo a ninguém e apenas serviriam para contornar aquela austeridade dos pais. Ela simplesmente precisava de Bruno na sua festa de aniversário, e ia conseguir.
Pediu a um garoto insuspeito que lhe entregasse um bilhete e que em troca do seu silêncio lhe oferecia um sorvete, daqueles deliciosos do sorveteiro da praça. Ele assim o fez, com um sorriso maroto no olhar.
À noite, Amélia estava particularmente excitada com tudo o que se iria passar e curiosa por ver como estaria o salão, como estariam todos os convidados. Ela levaria um vestido branco, como era típico nas debutantes, mas com um corte muito elegante e distinto. Entrou no salão pelo braço do pai e tal como ela tinha sonhado, a sala inteira parou para vê-la entrar. A festa decorreu sem percalços, a primeira dança com o pai que babava de orgulho e depois com alguns dos jovens promissores da vila, mas que nem um pouco faziam palpitar o coração de Amélia. Essa pessoa especial, se tudo corresse como ela esperava, estaria na ante sala, e era para lá que ele se dirigia quase às escondidas. E assim foi. Abriu a porta e do outro lado estava um Bruno envergonhado mas impecavelmente vestido, não ficava a dever nada aos emproadinhos do outro lado do salão de baile.
Estendeu-lhe a mão, ela aproximou-se e começou a dança... ao lado do salão de baile...

Escrito para a Fábrica de Histórias

[2012/04/01]




Como o vento e a terra tudo há-de acabar
o que o meu coração não aguentar
esqueceu ou deixou de amar.
Como tudo tem um FIM a paixão morreu em mim
mas a imagem continua presente
Agora e para sempre.
Aquela imagem de encantar
porque uma amizade nunca acaba
com a possibilidade de amar
sim... amar
Mas de uma maneira diferente
já não quero mais chorar
mas levantar-me e seguir em frente
Enfrentar o amor, o amor e a saudade
porque amar não é só sofrer na minha idade.
Amor, amar, o que será na realidade
será alegria, será dor
ou será apenas saudade
saudade...saudade que ainda sinto
saudade que não vou esquecer
saudade que não evito e que levarei comigo até morrer...


Saudade e não só
alegria, respeito admiração
tudo o que sinto por alguém
bem dentro do meu coração
Mas quando percebi, já tarde
que em toda a confusão
eu perdi... eu sofri...e algo morreu dentro de mim
Sem lágrima... sem dor... mas com AMOR
Eu descobri, que depois do que vivi
eu não consegui ser... EU
Mas nunca há-de voltar
aquele dia solitário e viril
Duma linda tarde de Abril
em que à nossa volta existia apenas uma espera
Uma espera pelo dia teu... dia meu...
dia que o mundo esqueceu
porque tudo acabou e nada mais existe... sinceridade apenas
sinceridade que tarda mas não falha
como o ingénuo primeiro espinho de uma rosa
dentro de um coração pequeno
pequenino como o de um pássaro
que não sabe voar porque ninguém lhe ensinou
e ninguém consegue ver o coração que não suspirou
coração que se tornou de pedra
coração que não quer viver
coração que sofre pelo amor que ACABOU...

Uma memória de 1991 agora reposta para: Fábrica de Histórias

[2012/03/25]

22:50



Ronan Keating, Yusuf - father and son

João estava super entusiasmado no recreio da escola, não parava de dar gritinhos de alegria enquanto exclamava: "hoje é dia de pai, hoje é dia de pai!" Os amigos e companheiros de bola, olhavam para ele sem conseguir evitar rirem também dos disparates que João ia fazendo à medida que continuava a lenga-lenga sobre o dia de pai.
Tinha passado a manhã agitado e a professora tinha tido que chamar-lhe por variadas vezes à atenção. A determinada altura optou mesmo por pedir a João que saísse da sala de aula para lhe levar um recado a Patrícia, a funcionária da secretaria. Enquanto ia e vinha, João acalmava, e assim os colegas podiam também estar mais concentrados.
No almoço, o entusiasmo de João contrastava com a manifesta falta de apetite. Estava irrequieto, mas mais do que isso, estava inquieto. A professora já se tinha apercebido do que motivava tanto nervoso, um misto de ansiedade e alegria, hoje era dia de pai.
Alguns meninos aproximaram-se da professora para lhe manifestar que João não estava bem, só fazia e dizia disparates e ninguém podia já aturá-lo. A professora pediu-lhes para terem paciência, que o João estava a passar por um momento difícil e que ia necessitar muito da ajuda dos que realmente eram seus amigos. Três ou quatro caras de meninos e meninas de 8 anos fixaram a professora como quem procura significado para aquelas palavras. Reparando nisso, e sempre atenciosa, a professora Alice disse-lhes: - O João vai ter hoje o seu primeiro dia de pai.
- Oh professora, exclamaram alguns deles em conjunto - não é nada! O dia do pai é só em 19 de março e ainda estamos a 9. Ainda nem sequer terminamos os presentes que estamos a fazer.
A professora voltou a sorrir e pacientemente lá lhes explicou: - Não é disso que estou a falar. Hoje é o primeiro dia que o João vai ficar na casa do pai, depois da separação. Vocês sabem que os pais do João se separaram, não sabem?
- Sim, responderam em uníssono, assumindo desde logo um ar algo consternado.
- Então agora percebem a ansiedade do João?
- Sim, professora, mas é muito triste não é?
- A professora pensou por uns instantes e disse: não tem de ser triste, mas sim, para o João vai ser sempre um misto de tristeza e de entusiasmo. E daqui para a frente ele terá muitos dias de pai, talvez mais do que antes da separação, disse sorrindo. 
Nesse preciso momento João acerca-se da professora e diz-lhe: - professora, dás-me um abraço?
- Claro, meu menino, vem cá. - e acolheu nos seus braços aquele menino perdido num misto de sentimentos demasiado confuso para a sua capacidade de gestão emocional. - deves estar feliz, hoje é dia de pai, disse a  professora enquanto lhe piscava o olho.
E ele, tentando piscar-lhe também o olho, mas fazendo ao invés disso uma careta disse: Sim, professora, estou muito feliz! -enquanto uma lágrima lhe rolava na face...


Escrito para: Fábrica de Histórias


[2012/03/18]


Não lhe conheço rosto, nem desenho na retina do meu olhar o contorno do seu corpo, se o tem. Sinto-lhe, isso sim, a presença forte, intensa do que nos traz à consciência a verdadeira importância que existe no estarmos simplesmente vivos. 
Dela, ou dele, emana um aroma inebriante, misto de madeira e canela, com reminiscências de maçã. E sei que está lá sempre que eu preciso de me encontrar comigo, sempre que eu preciso de, de novo, encarrilar no rumo certo, aquele que me aproxima do  simples, do verdadeiro, do naturalmente natural, do ser para além do ter.
Não falo do banco, que permanece estático por debaixo da árvore e que acolhe quem passa e busca o alento de um descanso, nem falo do arbusto que ondula ao sabor da brisa  e que faz companhia ao banco. 
Não falo das milhares de pessoas que por ali passam sem perceber que existe tanto mais por detrás de um simples banco de madeira de costas voltadas para o mar.
Não lhe conheço rosto e no entanto sei que é belo, ou bela, porque também não lhe conheço o género. Não lhe conheço os contornos do corpo, ou se o tem, mas sei que enche com a sua energia todo o espaço. 
Não fala comigo, não me tece elogios ou procura seduzir-me com artes e manhas. Não quer nada em absoluto de mim. Convive comigo porque ao invés de lhe querer  roubar o lugar e o protagonismo, limito-me a querer usufruir dele, ou dela, com o intuito de me tornar uma pessoa cada vez melhor.
Não tem nome, porque é aquilo que nós quisermos que seja. Para mim pode ser o mar, e para ti pode ser uma batucada, para mim pode ser a Lua e para ti pode ser o Sol.
Não é concreto, porque está presente no que nós escolhermos para ser nosso incentivo, nossa fonte de alma. Não tem fim, também não tem começo. 


Inspira-me o que me cativa. Inspira-me tudo e todos os que me sabem ver por dentro e de dentro para fora. Diferente, não é ser musa, diferente é ser instigador de vontades e de buscas, ainda que incessantes, pelo que na verdade importa nesta vida. Diferente é despertar consciências. 
Diferente és tu, que estás presente na minha vida, que permitiste que me alimentasse de ti, da tua sabedoria, dos teus ensinamentos, e em troca, apenas me pediste que te fizesse sentir, e que te desse a paz. 
Musa, ou inspiração, são todos os pequenos momentos em que me emociono. Diferente é isto, a capacidade de nos emocionarmos...


Escrito para: Fábrica de Histórias


[2012/03/11]

23:55



Este era um ano de grandes mudanças na vida de Carlos. Jovem adulto que teimava em não querer crescer. Era o que entre amigos se designa de "palhaço", mas sem qualquer carácter ofensivo, apenas porque era impossível não rir com o que quer que fosse que Carlos dissesse. Ainda que falando de um assunto mais sério, a forma como o fazia era só por si engraçada. Era um contador de histórias, engraçadas, ou que ele transformava em engraçadas e até de algumas desgraças nós rimos em grupo. Impossível estar-se mal disposto ao lado de Carlos.

Estava de mudança para um novo apartamento. Vivia ainda com os pais, pessoas simples, algo ingénuas, de tal forma que também elas muito engraçadas. Era domingo, e como sempre o café era o ponto de encontro. Vi entrar o Carlos com o seu ar meio alienado e sorri, o que nos traria hoje? Já vinha rindo o que motivou em nós uma enorme curiosidade.

- Então Carlos, já vi que trazes algo na manga - disse-lhe.
- Ele ria e ia dizendo - epah, os meus velhotes são o máximo - e ria que não conseguia parar.
- Mas o que foi - insistimos - já ríamos e ainda não tínhamos ouvido a história, e Carlos prosseguiu.
- Hoje começamos a mudança para o novo apartamento e eu disse à minha mãe que o elevador era inteligente e que bastava nós dizermos o andar em que morávamos que ele começava a andar.

Conhecendo a dona Cândida como conhecíamos, todos começamos logo a imaginar o que lá vinha, e Carlos continuou:
- Passei-lhe uns sacos para a mão e fiquei a vê-la dirigir-se ao elevador. quando lá entrou, ouvi-a dizer muito convicta : - sétimo esquerdo! Como o elevador não se mexia e ela continuava - Sétimo esquerdo! - Carlos ria agora que nem um perdido e todos nós com ele!
- e depois? - perguntámos.
- Depois saiu do elevador e disse-me com um ar muito triste: - está avariado, como vamos levar agora tudo até ao sétimo andar??

Pronto, foi a risada total. A partir daí o sétimo esquerdo ficou famoso. Só a dona Cândida para achar que o elevador para além de nos ouvir, ainda discernia o esquerdo do direito...

Baseado em factos reais (meados dos anos 90) e escrito para Fábrica de Histórias


[2012/02/26]

Pedra da Anicha


Mafalda Veiga - Ouve-se o mar

Tinham-se encontrado há minutos atrás naquele sítio maravilhoso, rodeado do que mais belo a natureza nos pode oferecer. Ele tinha-lhe prometido que a levaria a conhecer sítios lindos, e este era um desses locais... a promessa cumprida!
Ela mal conseguiu conter as lágrimas ao sentir-se tão maravilhada e aborvida por tudo o que lhe estava a acontecer, por tudo o que a rodeava...
O local, a companhia... a natureza, o mar ao fundo, o céu, as estrelas por testemunhas...
 Era assim que se encontravam no momento, extasiados, envolvidos no perfume um do outro e ao mesmo tempo em completa sintonia com o ambiente que os rodeava, quase sem conseguirem proferir palavra... sentiam, sentiam, sentiam... tudo se lhes entranhava na pele e na alma, desde o marulhar das ondas lá longe, à ligeira brisa que lhes tocava os corpos e trazia o aroma silvestre do local misturado com um toque de sal e a humidade própria do clima...
 Sentaram-se abraçados, as costas dela no peito dele, o respirar dele junto ao ouvido dela... podiam ouvir-se os batimentos do coração... podia sentir-se o tremer da emoção... a ansiedade daqueles lábios, o desejo daquelas mãos e a entrega daqueles corpos àquela natureza e um ao outro, foi o que mais perto se conheceu em termos de perfeição, de sintonia... como se tudo fosse parte da mesma matéria, da mesma essência, um era o prolongamento do outro e não se conheciam os limites, não havia barreiras, reservas...era assim, só porque sim...
 Naquela noite, as estrelas testemunharam os olhares lânguidos de amor dos dois, sem promessas, apenas aceitação, enquanto se misturavam numa alquimia perfeita de união, e nesse momento o Universo se curvou perante tamanha manifestação de Felicidade, pura, genuína... uma entrega de amor sem exigir mais nada em troca... apenas que no céu as estrelas continuem a brilhar, que lá longe o mar não deixe nunca de se espraiar na areia, que a brisa possa sempre soprar porque...

... Também, para sempre, quem amar assim, vai amar...



Este dia aconteceu meses após o afastamento. Mas a afinidade é isso mesmo, é estar para além das palavras, é recomeçar o que se deixou para trás como se nunca se tivesse partido. É não perguntar, porque basta um olhar, é não cobrar, porque o importante é sentir. 
Sabiam que este encontro era apenas mais um. Mas a cada um, uma vida inteira se vivia, e num sorriso se resumiam uma imensidão de sentimentos. 
Eles sabiam que o seu amor era impossível, mas não menos verdadeiro por isso. Deram-se as mãos naquele entardecer, em que harmoniosamente amaram a vida, se amaram e se eternizaram naquele local. Era o seu local, especial por todos os motivos e onde voltariam, vezes sem conta, juntos ou separados ao longo de uma vida que se mostrava demasiado longa para ser suportável... 

Parte do texto escrito em 2008/02/23 e agora reeditado e adaptado para Fábrica de Histórias

[2012/02/17]


Sara era uma jovem mulher, bonita, com uma áurea especial em torno de si, que atraía a atenção, o interesse, ainda que não fosse nada propositado. Já há algum tempo que se havia tornado numa mulher mais triste, um desgosto amoroso tinha subtraído à sua face aquele sorriso que lhe conferia uma beleza singular. Sara perdera o brilho, sim, é isso mesmo, a beleza continuava lá, apenas vestida de uma opacidade castradora. Sara perdera todo o brilho.
Arrastava-se nos dias, completamente perdida na melancolia. Sérgio tinha sido o grande amor da sua vida, era a única certeza que trazia consigo. A decisão de ruptura tinha sido sua, e sentia-se muitas vezes apontada pelos amigos por ter permitido que aquela relação terminasse assim, mas ela tinha os seus motivos. Não havia sido de ânimo leve que naquele dia de março o tinha olhado nos olhos para lhe comunicar a sua decisão.
Sérgio ficou sem reacção, ela sabia bem que ele não iria pedir-lhe para reconsiderar. Ele sabia bem o que se passava e como ela tinha toda a razão. Pesava-lhe nos ombros a responsabilidade por uma decisão que não era sua mas que tinham sido as suas atitudes a proporcionar. Olhou-a também ele apagado, tentou esboçar um sorriso que não nasceu, e ela, completamente embaciada pelas lágrimas, fechou a mão com força e partiu...
...
O tempo foi passando, e com ele a clareza de um amor que se deitou no lixo, a falta de uma cumplicidade genuína que pairava naturalmente sobre aqueles dois caiu sobre si - a saudade apoderou-se da sua alma provocando uma dor profunda. Sérgio cresceu, mais em dois meses que em dois anos. A confiança sempre foi o alicerce mais seguro de qualquer relação e ele não tinha sido suficientemente sábio para perceber isso e traiu essa confiança por nada. Trazia em si uma tristeza invisível que lhe amargava os dias. Sabia que Sara estava bem, sabia que ela, com a sua força interior iria ficar bem, mas sabia também que perdera o brilho e o gosto pela vida. Ele também se sentia assim. Não estava orgulhoso da sua atitude e o seu tempo era agora utilizado no sentido de perceber o que poderia fazer para corrigir o que de mal tinha sido feito.

Naquele dia, Sara passeava o seu golden no parque de sempre, ele sabia que a encontraria ali. Lá ia ela, linda, porém apagada, com a trela do cão numa mão e a outra mão fechada. Todos comentavam que Sara mantinha sempre aquela mão fechada. Aproximou-se dela e ela olhou-o como sempre fizera - nos olhos. Sérgio sabia que não adiantavam grandes argumentos com Sara. Ou se ia directo ao assunto ou qualquer rodeio apenas a faria exasperar.

- Perdoa-me, meu amor.

Ela perdeu uns bons minutos analisando aquela palavra dentro dos olhos dele. Nesses minutos, toda a cumplicidade surgiu de novo, porque a energia emanada daquele olhar lhe asseguravam a veracidade do pedido. Ele não sorria, mas num instante Sara largou a trela, e o cão correu contente e livre, e a outra mão, que por cerca de dois meses se mantivera fechada, abriu-se para destrancar o sorriso e o brilho que lhe haviam faltado naquele tempo.
Que linda estava Sara agora, o seu brilho iluminava também a alma de Sérgio que deixou cair uma lágrima ao mesmo tempo que lhe beijava o sorriso e sussurrava:

- Obrigado...


[...tenho um sorriso fechado na palma da minha mão/ sorriso que foi achado, caído no meio do chão... Trovante/84]

escrito para: Fábrica de Histórias

[2012/02/12]

23:19


(*) "Automat" de Edward Hopper


Fim do dia - Mafalda Veiga


Perdi por completo a noção do tempo, apenas sei que o último comboio deixou já a estação e tu não chegaste, mais uma vez.  Assim são os meus dias, todos os meus dias. Chego e o empregado já sabe o que me há-de servir. Com o tempo, o meu olhar foi-se fechando e num instante até a própria alma se foi consumindo. O entusiasmo dos primeiros dias, a ansiedade gritante que se derramava num sorriso radioso e se reflectia no olhar. O ânimo com que alegrava o café, cantarolando sempre bem disposta como se todo o Mundo me pudesse ouvir e desfrutar comigo da minha felicidade.
Felicidade que não demorou a apanhar, também ela, um comboio que passava sem rumo traçado.
Passaram semanas, mas eu não desisti. Alguns que conheciam a minha história olhavam-me com pena mas eu não os via e como tal isso não me trazia incómodo. Só deixamos que nos afectem as pessoas que têm alguma importância para nós, somos maiores que os olhares contristados dos que por dentro se riem do que entendem por ridículo. E eu, do alto de mim não quero nem saber. Nunca fui uma pessoa altiva, mas guardo o maior respeito pelas minhas emoções.
Hoje, de novo, entrei movida a esperança e sentei-me na mesa do costume. Penso que desde o primeiro dia que entrei no café aquela mesa não voltou a ser ocupada por alguém, que não eu. O empregado lá veio, com o chá do costume, com o sorriso do costume e até com o cabelo desalinhado do costume. Dirigiu-me as palavras do costume e eu sorri o sorriso apagado do costume. Agradeci com o "obrigada" do costume e ele despediu-se com o "disponha" de sempre.
Os meus movimentos eram já automatizados e já sabia de cor quais os comboios, horários e destinos que levavam ou traziam. Até se fazer silêncio na plataforma, o meu coração bombeava o sangue que me fervia nas veias e nem todos os passos do mundo me poderiam fazer mais feliz que aqueles que te trouxessem pela porta adentro. Mas, invariavelmente tu não chegavas e a noite apagava as pegadas que desejei perscrutar.
Um dia, sentar-me-ei nesta mesa fitando o chá que me observa, e não o contrário, e talvez no fundo da chávena se materializem as minhas emoções. 
Como um observador atento, o dono do café vinha traçando um retrato de mim ao longo dos tempos. Creio poder ter sido um objecto de estudo interessante para quem se interessa pelas pessoas e pelas suas emoções. Eu deixo que as minhas vagueiem pelos traços do meu rosto e pelos movimentos do meu corpo.
Último dia, último comboio...  o dono do café e o empregado do cabelo desalinhado dirigem-se a mim com algo nas mãos. Sorriem um sorriso puro, como se apenas eles entendessem os meus porquês. Pela primeira vez em semanas, sorri também eu um sorriso agradecido que me saiu cá do fundo do coração. 
O último comboio acabava de arrancar da estação, era o fim. No dia seguinte a estação seria encerrada, a linha deixaria de ter movimento, e eu deixaria de frequentar o café onde durante semanas intermináveis esperei pelo teu regresso.
Tomei nas mãos o embrulho que me entregavam, abri-o ali mesmo. Lá dentro, um quadro de uma mulher, pensei reconhecer-me, tomando o seu chá na mesa de sempre do café de sempre, o café de todas as emoções. Aquela lágrima que nunca saiu dos meus olhos, cruzou a minha face marcada pela desilusão. Mas eu segui em frente, de coração mais cheio do que no primeiro dia que ali entrei...

... e tu não chegaste...

Escrito para: Fábrica de Histórias

[2012/02/05]
Posted by Picasa

Rui era um menino como tantos outros da aldeia. Pobre e feliz como só os meninos pobres sabem ser. O seu sorriso era do mais genuíno que existe e espreguiçava-se na sua face pelas coisas mais simples que se possam imaginar.
Rui adorava sair da sua pequena casa para ir brincar com os outros meninos no descampado do bairro. Invariavelmente, a bola de trapos ou de papel era o passatempo predilecto da garotada. Ouviam-se gritos de alegria, e outros mais próprios de um jogo de bola, já que não se pode falar exactamente em futebol.
A mãe de Rui, Felicidade, passava sempre com o alguidar à cabeça, transportando a água que mais tarde teria de servir para cozinhar e para os banhos de seis pessoas, dois adultos e quatro crianças.
Os irmãos de Rui eram mais velhos e andavam na escola. uma escola onde faltavam muitas coisas, quase tudo, menos a vontade de aprender. Faltavam até as paredes. Rui estava desejoso de poder ir para a escola, era já para o ano.
No entanto algo o trazia preocupado, Rui andava sempre descalço, por um lado gostava, por outro nunca tinha conhecido outra realidade, os irmãos tinham uns sapatos que a mãe tinha encontrado num contentor de lixo num dos bairro ricos da cidade mais próxima, e outros que o pai tinha pedido na igreja para que os filhos pudessem ir à escola que ficava algo distante. A preocupação de Rui era a de não ter uns sapatos para poder ir à escola.
- Não penses nisso, dissera-lhe Felicidade. Até lá tudo se resolve.
Mas Rui não se convencia. Faltavam menos de quatro meses para também ele poder ir à escola e ainda não tinha sapatos. Tomou então a decisão de que teria de ser ele mesmo a resolver aquele problema.
Durante uns dias ninguém o viu no campo da bola. A mãe passava, como sempre, perguntava por ele, mas os outros meninos não sabiam. À noite, perguntava-lhe por onde tinha andado mas ele respondia com evasivas. E assim se passaram alguns dias.
Da mesma forma que tinha desaparecido do campo da bola, a ele regressou, mas sem nada falar aos seus amiguinhos do que tinha andado a fazer.
Passaram as férias dos irmãos mais velhos e começava a excitação pela proximidade do grande dia, mas vendo a mãe muito triste um dia, Rui perguntou-lhe: - Que se passa, mãe? Porque estás tão triste?
- Ainda não te consegui arranjar uns sapatos para que possas ir à escola, meu filho - disse pesarosa.
- Olha, mãe, não te preocupes que eu já arranjei uma solução - respondeu Rui, exibindo aquele sorriso radioso.
A mãe, espantada disse: Como assim, Rui? De que estás a falar?
- Anda mãe, vou mostrar-te, vem até à rua, mas só quando eu te chamar - disse Rui.
Dirigiu-se para a porta e saiu, daqui a uns instantes chamou a mãe: - Anda mãe, já podes sair!
A mãe saíu e...



imagem

... deparou-se com os sapatos mágicos.

" A necessidade aguça o engenho."


[2012/01/29]
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Twin Peaks - intro

Olá, o meu nome é Ângela e sofro de uma mania que me começa a incomodar. Molamania.
O meu marido já olha para mim de lado, os vizinhos riem-se de mim, até o meu filho que tem apenas três anos já se mostra intrigado com a minha atitude.
Levei tempo a assumir esta minha mania, ou obsessão se preferirem. Primeiro não lhe dava importância, a coisa corria naturalmente e quase nem dava conta de que chegava a levantar-me da cama de propósito a meio da noite por não conseguir deixar de pensar naquilo. Era intolerável estar ali na cama enquanto lá fora...
Bom, pior pior foi quando um dia saímos para passar o fim de semana fora e eu obriguei o Filipe a fazer 50 Km de volta porque me lembrei que não tinha deixado tudo como deve de ser. Ele ainda perguntou o quê, se não tinha fechado a porta à chave, se não tinha desligado o gás, o que poderia ser tão importante para que tivesse de regressar depois de 50 Km feitos. - Não é nada disso - garanti-lhe, mas tenho mesmo de voltar. - E ele assentiu e voltou mesmo.
Uma outra vez, com a casa cheia de visitas, um jantar no forno para servir acabou queimado porque eu não resisti e tive de ir ao terraço só por causa disto. Quando voltei, estava o Filipe e mais dois ou três convidados a tentar salvar o lombo de porco que ... não resistiu.
O meu filho, pobre Bernardo, quantas vezes já se viu privado da sua história para adormecer, porque a mãe, feito louca, desaparece assim que se lembra do assunto? Um dia, olhou para mim com um ar tão contrafeito e triste, que penso que foi isso que me trouxe aqui até esta reunião dos Maníacos Anónimos.

O meu nome é Ângela e sou uma professora primária. Sofro de Molamania..
Isto significa que não posso pensar em deixar as molas da roupa no estendal do terraço, que sofro um impulso imediato de ir resgatá-las, Não consigo dormir, comer ou respirar se pensar que existem molas, sozinhas, no estendal do meu terraço.

O meu nome é Ângela, e preciso de ajuda para superar a Molamania.

Texto escrito para: Fábrica de Histórias


[2012/01/22]
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00:37



Train - Drops of Jupiter

... 2010.

Para mim, decorria o ano de 2010, e com ele apareceste tu na minha vida. Percebi desde o primeiro momento que eras diferente. Não na aparência, porque aí, vestias a mesma roupagem que o comum dos homens, porém os teus olhos deixavam transparecer uma singularidade que me encantou. Uma conspiração galáctica uniu-nos naquele momento que ninguém previa e nascia ali um sentimento novo, que atravessava todas as constelações de estrelas até há data conhecidas.
Ensinaste-me tanto, falaste-me da forma como vias a humanidade, o desconcerto pelo rumo que havia tomado, a tristeza de não ter a fórmula secreta para que se desligasse o complicómetro e voltassemos às origens. Ensinaste-me muito, questionei-te e penso que também eu terei, não moldado a tua visão, mas pelo menos ter-te feito despertar para outros factores que também poderiam corromper a simplicidade com que se apresentava para ti a vida.
Para mim, tu eras de um lugar mais à frente, de um tempo mais evoluído. Procurei dentro de mim e por onde pude o método, a filosofia certa para te conseguir acompanhar, tentei corromper eu mesma o Universo que não podia ter conspirado para este nosso encontro em vão. Corri desalmadamente e cheguei a pensar ver todos os planetas alinhados à minha frente e lembrei-me logo de quando me falaste das previsões para o ano 2012. Eu sabia que tu estavas bem mais à frente mas não me quiseste alarmar e nada mais me falaste sobre o que de facto iria acontecer. Deste-me a tua mão e ficaste assim, olhando-me nos olhos com uma tranquilidade invulgar.
Durante muito tempo apresentaste-te como um prisioneiro da tua própria vida, mas um prisioneiro que sabia que mais cedo ou mais tarde se libertaria mas por circunstãncias alheias a si mesmo, isento da responsabilidade que lhe vergava o corpo. Acreditavas e eu acreditava também que todas as histórias têm o seu tempo, aquele que eu queria regular desesperadamente e que tu, pelo teu lado e munido de outros instrumentos que me eram desconhecidos, te limitavas a aguentar e a esperar.
Eu começava a acreditar que 2012 podia ser o ano de todas as revelações. Não sabia exactamente o que iria acontecer, mas a energia que recebia da tua presença tão efectiva em mim, os abalos que me provocavam as tuas palavras, as ditas ou as apenas sentidas, eram catalisadores de esperança.

Hoje sei que não me interessa qual é o teu tempo na realidade, se vives em júpiter ou em marte. O que sei é que sintonizamos a mesma frequência e somos os dois muito simples na arte do Amar. Não amar um ao outro, ou um e outro, mas Amar a vida, o próximo e a natureza. O que sei, é que correrei todos os planetas e até aqueles que já não constam, só para poder estar contigo.

Teletransporto-me agora... recebe-me só...

Escrito para Fábrica de Histórias

[2012/01/15]


Mónica Ferraz - Golden Days

Amanhecia o mesmo dia difícil de todos os dias, a rotina instalada, o automatismo dos movimentos, das acções.
Do mundo dos sonhos já nada restava, a realidade era a que se apresentava. Cara fechada, pensamento distante, olhar vazio e ausente. O pequeno almoço, fonte de energia, não era mais que a obrigação que me permitia aguentar-me em pé um dia inteiro de trabalho, e não digo em pé na verdadeira acepção da palavra, pois até trabalho sentado. Já sabia como acabaria o meu dia, e a dor era já demasiado forte para querer que o meu dia acabasse, as coisas são mais lentas do que desejava. Estou farto!

Desde o dia do acidente, desde que percebi que o meu sonho de vir a ser piloto nunca passaria de um sonho, a vida perdeu a cor e perdeu o sentido. Desejei tanto que terminasse ali a minha história, não ter de enfrentar mais nada, não viver para assistir ao fracasso, à discriminação. Foram tempos muito complicados que só com a persistência e paciência da minha namorada, Verónica, eu consegui ultrapassar. Ela nem se zangou pelo facto de eu estar a ser egoísta ao ponto de querer morrer e deixá-la sozinha, antes pelo contrário, disse-me olhando-me nos olhos com aquele olhar só dela, de que estaria sempre ao meu lado e que juntos íamos acabar por transpor todas as barreiras que hoje se afiguravam intransponíveis.

Nesse dia, mais um um, que acordou vestido de cinzento, um cinzento que só eu via, porque na realidade parecia que reconhecia um resto de Sol entrando pela janela, Verónica chegou, enérgica como sempre, acabada de regressar do seu jogging matinal, suando energia por todos os poros da sua pele e lançando-me o sorriso mais bonito que alguma vez pude receber.
- Então, meu amor, vamos?
- Vamos sim, era impossível não retribuir o sorriso. No entanto, estava bem ciente de que não conseguia retribuir a mesma intensidade, a mesma verdade que parecia viver em Verónica.

Ela era, sem sombra de dúvida o meu motor. Na verdade os momentos mais difíceis são já parte da nossa história, voltei a andar após muitas sessões de fisioterapia. Estava já bem mais motivado com este avanço e ainda assim me sentia insatisfeito. No ginásio, ao fim do dia de trabalho, deu-se o derradeiro baque em mim quando me queixei das dores que sentia nas pernas com raiva, dando um murro no colchão onde me encontrava. Aproximou-se de mim um outro rapaz, numa cadeira de rodas. Sorriu-me e piscou-me o olho enquanto me disse: "Ainda bem que te doiem as pernas, é sinal de qe tens pernas"
Olhei para ele, e fiquei sem saber o que dizer. Passou-me a raiva, passou-me o medo, passou-me o cansaço. Devagar, porque os meus movimentos ainda não eram seguros, aproximei-me dele, sem palavras abracei-o com as lágrimas a correrem no meu rosto. Apenas consegui balbuciar um "Muito obrigado. Acordaste-me!"

Carlos não estava zangado ou triste, e todos os dias eu o via no ginásio a lutar arduamente por uma vitória a cada nova batalha, nunca lhe ouvira um queixume. Carlos tinha sido amputado das duas pernas e agora procurava fortalecer-se de forma a que lhe pudessem ser aplicadas duas próteses. Carlos tinha perdido as duas pernas num acidente de trabalho na construção civil. Carlos fez-me perceber a minha pequenez com uma frase tão simples e eu só podia agradecer aquele murro no estômago.

Desde o dia do meu acidente de mota, enquanto acelerava orgulhoso a minha potente mota, destemido e irresponsável, a vida perdeu o sentido para mim. Desde o dia em que percebi que apesar dos pesares eu tinha muita sorte pois estava inteiro e principalmente vivo, a vida ganhou um novo sentido. E isso eu devo-o a duas pessoas: Verónica e Carlos.

Para SEMPRE!

Escrito para: Fábrica de Histórias

"Dê a quem você ama, asas para voar, raízes para voltar e motivos para ficar" 
Dalai Lama


[2012/01/09]
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22:34




Mafalda Veiga - Largar mais

Todos os anos terminam invariavelmente em fogos, sejam de artíficio, sejam meras palavras luminescentes que acordam todas as vozes interiores que me habitam. Já não existem lugares seguros ou redes debaixo dos trapézios, e o oiro do incêndio propaga-se pelo meu Ser como um rastilho de genuinidade que me acorda para todos os flashes incandescendes de vida.

Todos os anos terminam invariavelmente em determinações, como por magia passamos a saber exactamente o que queremos, depois de um ano inteiro a patinar entre medos, palavras, acções, silêncios, omissões e outras tantas incongruências de percurso. Cada passa é um passo no sentido de uma nova concretização, cada grito de alegria é um sopro a todos os fantasmas que teimam em perseguir-nos e que agora, repentinamente, parecem temer toda a energia que nos salta dos olhos.

Todos os anos terminam. Tudo termina invariavelmente. Porém, cada fim pressupõe sempre um novo começo, um renascer. Cada promessa pode vir a não ser cumprida, cada objectivo a que nos propusemos pode até não ser alcançado, mas ainda assim existe um renascer invísivel na fracção de segundo em que um ano muda, é um breve momento, um suspiro, um piscar de olhos, mas já tudo mudou mesmo se não o percebemos na altura.

Não sou certamente a mesma e digo-o com regozijo, porque cada etapa é mais um crescimento, cada adversidade é mais um pedra do meu castelo, cada cedência, cada aceitação é mais uma batalha vencida no meu crescimento interior e o silêncio que aprendi a viver é mais um motivo para me orgulhar e para erguer a cabeça e dizer: Eu consigo!

Faço questão de me prostar no chão e de investir em lágrimas a cada regresso a casa sozinha nos primeiros minutos do Ano Novo. Mas não é tristeza, não é autocomiseração. Antes é o purgar do que me faz mal, é deitar fora tudo o que é negativo e me consome a alma. No minuto seguinte, renasço em força para enfrentar o que for do novo ano, e nesse novo ano há uma coisa de que eu faço questão: manter junto de mim todas as pessoas que amo e que me amam, retirar o melhor de cada momento e rodear-me de cores e sorrisos nos momentos mais tristes.

UM BOM ANO NOVO A TODOS/AS


[2012/01/01]
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Merry Christmas - Coldplay


Lembro-me de correr as escadas desgovernadamente na manhã daquele 25 de Dezembro de um qualquer ano de finais dos setenta. O salão da casa que nos havia sido cedida pelos patrões emigrados de uns familiares, parecia aos meus olhos o salão de um palácio real. Era como viver uma vida de princesa na personagem da gata borralheira. O fausto do ambiente, a grandeza da casa, eram facilmente realçados pelo frigorífico que era nossa pertença e onde cabiam quase todos os nossos bens, bem como todos os nossos sonhos. 
Bom, na realidade, como criança que era, eu tinha sempre a capacidade de sonhar sempre um pouco mais além. Este é o primeiro Natal que as minhas memórias longínquas registam.
Que bom que é ser uma criança no Natal. Ser simplesmente criança, poder pedir do fundo coração aquilo que mais se deseja, quando o que mais se deseja é ter o que quer que seja embrulhado debaixo da mágica árvore de Natal, junto ao sapatinho que havia sido estrategicamente colocado ali para o efeito.
Ser criança no Natal é não sentir culpa por se desejar ter algo que é impossível ter. Ser criança no Natal é poder sonhar e criar um breve momento de ilusionismo. É, ao mesmo tempo, oferecer ao adulto que cuida, que cria, que ama, a sensação de realização, ao ficar-se feliz por desembrulhar uma boneca de pano, quando nos sonhos mais íntimos se desejou ter aquela boneca que nunca se viu a não ser, precisamente, nos nossos sonhos mais íntimos.
Quando cheguei ao fundo das escadas, parei extasiada pelo que acontecia debaixo da árvore de Natal. A minha memória não registou mais nada daquele cenário a não ser a árvore, os presentes e eu. E é assim que gosto de recordar, sem culpas, porque as crianças nunca serão demasiado crescidas para sonhar com presentes debaixo da árvore de Natal, as crianças nunca serão demasiado crescidas para perceberem se aquilo que mais desejam é visto como materialismo, porque sempre no fundo do coração de uma criança, um desejo é apenas um desejo, um sonho é apenas um sonho e cabe àqueles que lhes cuidam, que lhes amam, serem a balança que regula a sensatez.
Hoje é diferente, hoje estou do outro lado. Hoje sei que o desejo mais intimo da minha cria não pode ser embrulhado e colocado debaixo da árvore de Natal, por muito dinheiro que houvesse. Nos Natais de hoje é impossível não viver uma culpa, mas é gratificante ver como uma criança é sempre uma criança e fica sempre tão feliz com o que quer que seja que esteja embrulhado debaixo da árvore de Natal...


[2011/12/25]

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Imagem daqui
Paula Oliveira & Bernardo Moreira - Estrela da Tarde

Um dia vou...

... deixar de ter uma questão com esta expressão! Hoje é o dia!

Vejo esta expressão à luz das minhas experiências pessoais, mas tenho, definitivamente, que alargar os meus horizontes. Assim como os actos, também as palavas ficam com quem as profere, as intenções da mesma forma, podem não passar disso, as palavras podem ser apenas palavras também, uma simples junção de letras. Eu gosto das palavras com acção. Aquelas que nos levam nas suas asas mas que se concretizam, produzindo felicidade. Prefiro que se calem as palavras que são apenas palavras, e que dancem comigo aquelas que têm por detrás o fundamento, o objectivo concreto e principalmente a intenção verdadeira de concretização. Essas, ainda que de facto nunca venham a passar de palavras, não perderam o seu significado, não foram vãs.

Um dia escrevi assim:


Sempre quis escrever, um dia.Um dia... tudo!

Frase repetida incontáveis vezes, em jeito de promessa não prometida, na segurança de um não ter de cumprir.
Um dia, expressão que dá vida à Esperança e alimenta a vontade de ser persistente, ou que simplesmente encaro como uma fuga para a frente, vivendo o momento e me abstraindo de que o um dia pode nunca vir a acontecer porque, simplesmente, um dia já não estarei aqui, um dia, tudo muda, tudo passa... fica o amargo de um dia não ter sido o próprio dia.
Porque vivemos uma vida em busca de algo ou alguém e quando encontramos nos acossamos com medo? Medo de quê? De sermos felizes?
Este é o momento em que eu sei que existo porque daqui a nada tudo pode simplesmente acabar.
Sei ser feliz nos momentos próprios não permitindo que a tristeza me enuble o pensamento, e sei que um dia, ela partirá, assim como num outro dia, regressará para me acolher no seu colo, quando em mim já não caiba ser feliz.
Eu quero acreditar que um dia alguém me vai entender e querer comigo fazer de um dia, todos os dias.
Para quê protelar o sentido da vida sem viver o válido de todos os dias...
Um dia, eu escrevo...


Este foi o dia! Peguei nas minhas memórias mais doídas e escrevi aquilo que um dia eu sempre quis. Escrever que me libertei de um bloqueio emocional. Mais que escrever, porque de intenções já estamos cheios, ultrapassei efectivamente o meu bloqueio. Voltarei a utilizar a expressão um dia, com a tão pouca regularidade que já me era habitual, mas deixarei de bloquear quando alguém me disser: Um dia vamos, um dia tudo... 
Continuar a acreditar é o meu propósito, aí  eu não falho.

Respirar fundo, e dar o primeiro passo: Acção!

Escrito para a Fábrica de Histórias incluindo um texto escrito em 2011/05/06

[2011/12/18]