Merry Christmas - Coldplay


Lembro-me de correr as escadas desgovernadamente na manhã daquele 25 de Dezembro de um qualquer ano de finais dos setenta. O salão da casa que nos havia sido cedida pelos patrões emigrados de uns familiares, parecia aos meus olhos o salão de um palácio real. Era como viver uma vida de princesa na personagem da gata borralheira. O fausto do ambiente, a grandeza da casa, eram facilmente realçados pelo frigorífico que era nossa pertença e onde cabiam quase todos os nossos bens, bem como todos os nossos sonhos. 
Bom, na realidade, como criança que era, eu tinha sempre a capacidade de sonhar sempre um pouco mais além. Este é o primeiro Natal que as minhas memórias longínquas registam.
Que bom que é ser uma criança no Natal. Ser simplesmente criança, poder pedir do fundo coração aquilo que mais se deseja, quando o que mais se deseja é ter o que quer que seja embrulhado debaixo da mágica árvore de Natal, junto ao sapatinho que havia sido estrategicamente colocado ali para o efeito.
Ser criança no Natal é não sentir culpa por se desejar ter algo que é impossível ter. Ser criança no Natal é poder sonhar e criar um breve momento de ilusionismo. É, ao mesmo tempo, oferecer ao adulto que cuida, que cria, que ama, a sensação de realização, ao ficar-se feliz por desembrulhar uma boneca de pano, quando nos sonhos mais íntimos se desejou ter aquela boneca que nunca se viu a não ser, precisamente, nos nossos sonhos mais íntimos.
Quando cheguei ao fundo das escadas, parei extasiada pelo que acontecia debaixo da árvore de Natal. A minha memória não registou mais nada daquele cenário a não ser a árvore, os presentes e eu. E é assim que gosto de recordar, sem culpas, porque as crianças nunca serão demasiado crescidas para sonhar com presentes debaixo da árvore de Natal, as crianças nunca serão demasiado crescidas para perceberem se aquilo que mais desejam é visto como materialismo, porque sempre no fundo do coração de uma criança, um desejo é apenas um desejo, um sonho é apenas um sonho e cabe àqueles que lhes cuidam, que lhes amam, serem a balança que regula a sensatez.
Hoje é diferente, hoje estou do outro lado. Hoje sei que o desejo mais intimo da minha cria não pode ser embrulhado e colocado debaixo da árvore de Natal, por muito dinheiro que houvesse. Nos Natais de hoje é impossível não viver uma culpa, mas é gratificante ver como uma criança é sempre uma criança e fica sempre tão feliz com o que quer que seja que esteja embrulhado debaixo da árvore de Natal...


[2011/12/25]

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4 Responses to "Dias de Natal"

  1. Butterfly Says:

    O desejo da tua cria é o que eu penso que é?

    Espero que tenham tido um Natal excelente, tu e o teu menino:)

    Um Beijinho grande
    Cláudia

  2. Natacha Says:

    Sim, Cláudia, penso que seja isso mesmo ;)

    Obrigada, minha querida, já passou e não posso deixar de sentir alguma alegria por isso mesmo ;)

    Um beijinho grande para ti também e continuação de Boas Festas junto dos que amas :)

  3. Closet Says:

    É verdade Natacha, agora que estamos deste lado, o melhor presente é ver os olhos brilhantes e a felicidade das nossas crianças a desembrulharem os seus pequenos tesouros, pedidos ao Pai Natal :) Gostei muito! Beijinhos

  4. Natacha Says:

    É mesmo verdade Sónia... sinto que é minha obrigação manter essa magia para o meu menino, e é tão gratificante só aquele sorriso :)

    Beijo grande!

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