Anywhere the heart goes - Mónica Mancini

“ Existe uma Lenda acerca de um pássaro que só canta uma vez na vida, com mais suavidade que qualquer outra criatura na terra. A partir do momento em que deixa o ninho, começa a procurar um espinheiro, e só descansa quando o encontra. Depois, cantando entre os galhos selvagens, empala-se no acúleo mais agudo e mais comprido. E, morrendo, sublima a própria agonia e solta um canto mais belo que o da cotovia e o do rouxinol. Um canto superlativo, cujo preço é a existência. Mas o mundo inteiro pára para ouvi-lo, e Deus sorri no céu. Pois o melhor só se adquire à custa de um grande sofrimento… Pelo menos é o que diz a lenda (…)”


Francisca não conseguia parar de soluçar, chorava todo o choro contido que lhe apertava o peito e fazia doer o coração. No escuro da noite, no silêncio da sua solidão, deitada na sua cama, eclodiam gritos mudos, soluços profundos de incompreensão. Tanto amor no seu coração!

De nada se arrependia era um facto, sentia-se das pessoas mais ricas pela oportunidade de usufruir da presença e até do amor de alguém tão especial, porém na sua cabeça o eco repetia-lhe vezes sem conta: “Mas porquê? Porquê?”

Francisca recordava bem o dia do primeiro encontro, uma sintonia sem precedentes, tudo tão naturalmente certo, tão alegadamente transparente. Estava feliz, fazia alguém feliz e nada mais importava. Vivia o momento, não queria saber de mais nada, despiu-se completamente perante ele, não só da roupa, mas pôs a descoberto a sua alma, declarando-lhe o seu amor incondicional… esse amor que permanece.

Francisca sempre achou que era acreditando nas pessoas que lhes provava que valia a pena ser-se sempre verdadeiro. Uma das suas frases mais repetidas era: “eu cumpro o meu papel: acreditar nas pessoas que permito que entrem na minha vida. O teu papel é seres-me sempre verdadeiro. Quando assim não for, não fui eu que não cumpri e a minha dignidade e a minha cabeça continuarão sempre erguidas”

Naquele dia, Francisca não pôde conter a pergunta e em jeito de introdução disse-lhe:

- Meu amor, sinto o teu amor, sinto esta nossa inexplicável empatia, porém sinto que existe um lugar em que não consigo entrar, sinto que em determinado contexto da tua vida eu não tenho espaço, eu não pertenço”

Ele engasgou-se, hesitou, mas ainda assim lhe disse:

- Existe uma coisa que te queria dizer acerca da minha vida, mas tenho evitado para não estragar estes momentos tão especiais que nos unem…

- Diz-me Pedro, peço-te. Eu sei que há algo e só não sei definir o que é. Diz-me, porque eu aceito tudo porquanto sejas verdadeiro.

- É só uma relação que eu tenho, respondeu ele baixando o olhar mas desvalorizando o assunto e, inconscientemente, espetando uma faca no coração de Francisca que agora sangrava incessantemente.

Este foi o momento crucial. Francisca tinha agora a decisão nas suas mãos. A partir deste momento e depois de uma conversa de horas, estava nas mãos dela a decisão de permitir que esta “relação” continuasse, ou colocar, ali mesmo, um fim numa “relação” que não tinha qualquer futuro.

A encruzilhada que ninguém deseja enfrentar. A escolha era entre ter momentos felizes, amar e ser amada, ou libertar-se para a possibilidade de encontrar alguém que a quisesse a tempo inteiro, que a amasse na plenitude, que quisesse conviver com os seus inúmeros defeitos e usufruir das suas qualidades. Alguém que desejasse vivê-la, usá-la, amá-la, que sonhasse alcançar sonhos conjuntos, como observar aquela mesma estrela que os uniu.

Mas falamos de amor. Como se nega um amor? Como não acreditar perante as energias trocadas a dois que o amor, este que os unia, não fosse tão maior que permitisse mudar o curso daqueles dois caminhos, tão diferentes, tão iguais!?

Não foram feitas promessas, não foram feitas cobranças, mas Francisca disse-lhe:

“Assim como os jardins, também o amor tem de ser regado para florescer, para se manter viçoso, bonito. Aceito-te, porque te amo, mas sei que um dia tudo pode mudar, enquanto eu me sentir bem contigo, aceito-te”

E abraçaram-se e emocionaram-se e aceitaram-se.

E assim se confirma a Lenda celta…

“ (…) O pássaro com o espinho cravado no peito segue uma lei imutável impelido por ela, não sabe o que é empalar-se, e morre cantando. No instante em que o espinho penetra, não há nele a consciência do morrer futuro; limita-se a cantar, e canta até que não lhe sobra vida para emitir uma única nota. Mas nós, quando enfiamos os espinhos no peito, nós sabemos, compreendemos. E assim mesmo, fazêmo-lo.”

Possível interpretação da lenda escrita para: Fábrica de Histórias

Lenda retirada de um grande clássico da literatura, cuja leitura aconselho vivamente: Pássaros Feridos de Colleen McCullough

[2011/10/13]

4 Responses to "A minha versão"

  1. Ametista Says:

    Li este livro há muitos anos e adorei..
    Não serão os amores 'proibidos' os mais verdadeiros..?
    Bela a tua versão, querida Natacha :)

    Um grande beijinho

  2. Natacha Says:

    Querida Leonor... obrigada.
    Sinceramente não gostei muito do que fiz a este livro que adoro, mas foi uma teimosia em participar... Não cometi o mesmo erro esta semana, apesar do tema ser muito interessante, senti que precisava de ser bastante trabalhado para sair alguma coisa de jeito e eu não ando lá aquelas coisas, ando até meio afastada daqui...

    ... melhores dias virão ;)

    Beijo enorme

  3. Autores Says:

    IMPORTANTE:
    Nanowrimo FH Team, em http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/66223.html :-)

  4. Natacha Says:

    Obrigada Gerenta :)

    Já espreitei e ... vamos ver no que dá :)

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