Wave - Tom Jobim


Tudo é tão volátil!

A chuva que durante a noite foi caindo ou o Sol que ainda há pouco rasgava os céus com o seu calor e que entretanto também já murchou.
A felicidade que se esvai no próximo suspiro, ou a tristeza que se esfuma no próximo sorriso... entre um e outro pode existir apenas o tempo de um pestanejar...
Às vezes, sinto que se me rasga o peito numa dor sem fim, uma dor boa de sentir... para no segundo seguinte se agudizar numa dor doída e sofrida de ausência, de vazio...
Procuro transformá-la em grito, sinto até a dilatação dos pulmões num impulso de grito... que sai mudo, e se retraem os lábios e a boca à posição de fechada, mesmo sem perceber o que acabou de acontecer... e dói...
Outras vezes, sinto que me assomam as lágrimas perante a beleza e a essência dos sentimentos tão sentidos, tão bonitos, ou apenas de um local, de um pensamento, de uma paisagem, de uma fotografia, de um momento, de uma memória... Que lágrimas boas que me enchem a alma de alegria e felicidade de existir, de me saber, para logo se transformarem em lágrimas de sangue por tudo o que sinto que é tão grande, tão grande que não cabe em mim... tenho de repartir... 
Vezes há ainda, em que sinto vontade de rasgar o horizonte com punhais de esperança, para logo de seguida a esperança me escapar, quais grãos de areia numa ampulheta... tudo é tão volátil... ...as certezas de que duvido e até as dúvidas de que tenho certeza...
Os silêncios são ensurdecedores, mas por vezes mudos e iluminados pela escuridão, inundados de poesias e pintados com as cores do arco-íris. Silêncios de sons compassados como um mar que se espraia em areias de mil cores, ou chicoteado em fúria contra as rochas num dia de tempestade, ou ainda, em acalmia, sereno… tudo é tão volátil. 
As palavras brotam do silêncio como as notas numa escala musical, e eu escuto! Eu sou o instante, volátil! O silêncio é uma coisa! E se eu me calo... o silêncio falará baixinho. Quando o silêncio fala baixinho vem o escuro, e com ele o medo, as trevas, e nas asas do breu me vejo cercada... confusa...
Feita um instante, soergo-me e dou o compasso... não deixarei que me vençam!
A Lua ilumina a minha noite no silêncio esplendoroso das coisas, e estas bailam ao som das poesias coloridas como borboletas em torno das flores! 
Hoje, a caneta preta habitual não me é de serventia... Parada, inútil por entre os meus dedos...
Olho, estática, a folha de papel, lisa e branca...
Sinto o cheiro do papel virgem onde me quero derramar, ao qual me quero entregar, e a caneta parece só querer escrever saudade, escrever tristeza, escrever receios e medos, escrever dor...
Nego-lhe essa vontade e ponho a caneta de lado... hoje não vais ser a minha companheira,  pegarei em ti novamente quando me transmitires esperança, confiança, coragem...
Pego nos meus lápis de cor e com eles pinto as palavras mais tristes com as cores mais alegres.
A "lágrimas" pinto de rosa; a "dor" pinto de vermelho; a "tristeza" pinto de azul; a "incerteza" pinto de laranja... reservo as restantes cores.
Desenho o meu sentir no papel ao som das letras coloridas...
Pinto a minha vida com as cores que tenho no coração...
Quero vestir a palavra "solidão" de verde, cor que tinha de reserva...
Quero transformar o negro do "medo" e o roxo da "ansiedade" no lilás, ou no alfazema e por eles deixar entrar a Luz.
Quero inventar uma cor nova para a "coragem"...
Quero um novo significado para volátil, porque o que é agora não o é no instante que se segue.


Composição de vários textos escritos anteriormente e agora reeditados para: Fábrica de Histórias



[2011/03/10]

Posted by Picasa

16 Responses to "Da volatilidade das coisas"

  1. Magnolia Says:

    Mas há coisas que são eternas....
    Bom fim de semana Nat

  2. Moon Dreamer Says:

    Olá Natacha,

    depois de ler o teu texto não sei o que gostei mais: se das emoções que florescem por debaixo das palavras, se do modo como usas as palavras para fazer florescer essas emoções.
    Adorei o teu texto. E, vês? Conseguiste um texto fantástico sem que seja uma história de amor! Parabéns!!!

    Bom fim de semana!!!

  3. Natacha Says:

    Mag, de repente ocorrem-me os diamantes (sorrisos) ;)

    Beijo e Bom fim de semana :)

  4. Natacha Says:

    Moon Dreamer,

    Esta é sim uma história de Amor, acho aliás, que não sei (não sabemos) fazer o que quer que seja sem Amor :) Mas este é um Amor diferente, claro... um Amor às palavras, um Amor às emoções e ao que podemos construir com ambos :)

    Muito obrigada, fico mesmo contente com a tua tatuagem ;)

    Bom fim de semana, amanhã começarei (espero) a minha ronda pelos vossos textos...

  5. Ametista Says:

    Ler-te toca-me profundamente.. a forma como descreves o teu sentir, a maneira como transmites o que a tua alma dita.. e fico assim, sem saber o que dizer porque, tal como tu, também eu sinto assim..
    e mais.. sinto-nos, de certa forma, idênticas.. entendes-me..?
    Adorei, como não podia deixar de ser..

    Um grande beijinho :)

  6. Natacha Says:

    Entendo-te perfeitamente, Ametista, já que desde sempre assim senti também. Uma identificação muito grande ao ler-te, revejo-me muito também na forma do teu sentir...

    E sabe tão bem :) são espantosas estas sintonias que se dão no espaço virtual.

    Muito, mas muito obrigada e um beijo grande :)

  7. A. Says:

    adorei o teu texto.
    "(...)Pego nos meus lápis de cor e com eles pinto as palavras mais tristes com as cores mais alegres.A "lágrimas" pinto de rosa; a "dor" pinto de vermelho; a "tristeza" pinto de azul; a "incerteza" pinto de laranja... reservo as restantes cores.Desenho o meu sentir no papel ao som das letras coloridas...Pinto a minha vida com as cores que tenho no coração...Quero vestir a palavra "solidão" de verde, cor que tinha de reserva...Quero transformar o negro do "medo" e o roxo da "ansiedade" no lilás, ou no alfazema e por eles deixar entrar a Luz.Quero inventar uma cor nova para a "coragem"..(...)
    belíssimo. parabéns:)
    beijinho

  8. Natacha Says:

    Bem, Ana... ser citada por ti que citas tantos dos Enormes é um prazer enorme (sorrisos)

    Obrigada, amiga, espero que já estejas recomposta da manif ;)

    beijinhos e bom Domingo

  9. SDaVeiga Says:

    Ainda bem que eternizaste tudo o que é volátil com palavras tão belas e sentimentos tão lindos...
    Adorei!
    Boa semana!

  10. Natacha Says:

    Olá Sónia!

    Até a Eternidade pode ser volátil ;) já que tudo é Eterno... enquanto dura ;)

    Obrigada por me tatuares, um beijinho e boa semana :)))

  11. Cláudio Says:

    «Tudo é tão volátil», mas não a tua forma notável de escrever. A tua escrita é voadora sim, mas não inconstante. É inconstante sim, mas só metade. Naquela metade livre, própria de quem tem asas. Para quê ter asas e voar certinho? Escrever bem é isso mesmo, é voar de todas as maneiras e em qualquer direcção, mas sempre com elegância, e a tua… É tão tua! Ler este texto, com calma, com aquela paz intrínseca a quem absorve poesia, é algo surpreendente. Cheguei ao fim num estado totalmente zen. Muito parecido com uma sensação que conheço… Uma paz ausente de pensamentos, a alma repousando e sorrindo e cores, muitas cores! Bem sabia que as cores eram terapêuticas :)

  12. Natacha Says:

    E agora, Cláudio!? O que dizer???

    Até corei :) Obrigada, parece-me pouco perante as tuas tão queridas palavras, mas penso que seja de facto a palavra mais apropriada pois é assim que me sinto. Grata, grata pela tua presença, pelas tatuagens com que me marcas.
    Conheço tão bem a sensação de que falas, é tão especial, que pensar que palavras minhas te deixaram assim só me deixa: Feliz!

    Obrigada por TUDO!

    Um beijinho para ti

  13. Ivete Says:

    Natacha, o texto ficou lindo!Recheado de sentimentos,de força de vontade, de olhares para a beleza da vida...Parabéns! Expressas-te muito bem, não importa se usas "a caneta ou os lápis de cor"!

    Um beijinho

  14. Natacha Says:

    Olá Ivete!

    Muito Obrigada.

    A vida é composta de vários olhares e não devemos tentar esconder nenhum deles, sob o meu ponto de vista. Porém, sou também da opinião, de que mesmo do olhar mais triste, mais doloroso,e por aí em diante, devemos sempre retirar o que houver de melhor, porque nada acontece por acaso.

    Publiquei uma vez um texto, e não me recordo do autor, que a determinada altura diz: A vida não se conta pelo número de vezes que você respirou, mas pelos momentos em que você perdeu a respiração.

    Um beijinho

  15. ónix Says:

    Natacha
    As tuas palavras fazem-nos voar...muitíssimo bem escrito.
    Bjiinhos

  16. Natacha Says:

    Olá Ónix!

    Muito Obrigada, que bom que é ver e sentir que tanta gente que aprecio me acompanha nos meus vôos :)

    Beijo grande

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