Mafalda Veiga - Imortais

Especialmente hoje recordo quando eramos crianças e corríamos pelos corredores daquela mansão, alegremente. Corrias atrás de mim e eu fingia não querer que me apanhasses num jogo de charme tão inocente quanto inocente pode ser uma criança. Anos mais tarde voltamos a falar daqueles tempos. Conhecemo-nos há uma vida, não é? - E talvez um pouco mais. Existe entre nós um amor tão puro que não se rende às pressões constantes que esta vida de adultos nos impõe. Lembras-te como as nossas gargalhadas rompiam pela casa dando-lhe uma vida que ainda hoje parece perpetuar, não obstante todas as ausências? Tenho saudades desse tempo e de ti, minha criança doce, amiga, meu menino de alma pura que me encanta - onde estás?
Lembras-te? - Mais crescidos continuamos as brincadeiras só nossas, que mais ninguém percebia o que era para nós um motivo maior de alegria. Tão bom sermos os únicos a saber desta nossa felicidade, não achas?
Hoje, corro por uma mansão cheia de labirintos de portas fechadas, não de ti, mas em busca de ti. Não de te agarrar, ou de te prender, mas de te encontrar e de em ti me reencontrar. A minha voz também se cala para se juntar à tua e as gargalhadas são omissas. Por vezes são as lágrimas que me fazem continuar a avançar e a querer perpetuar as nossas memórias. Por vezes penso que te encontro, volto a escutar a tua voz e de novo de imensa alegria se inunda a minha alma, mas a casa é tão imensa, as portas são tantas, que invariavelmente entro dentro de um espaço vazio até sentir o desespero tomar conta de mim.
Há dias em que tudo é mais pacífico, em que existe uma aceitação de que crescemos e não somos mais aquelas duas crianças tão cúmplices. Custa-me perder-te assim -não perder-te na verdadeira essência, porque eu sei e tu sabes que seremos sempre o outro lado da mesma moeda, mas custa-me não partilhar mais as gargalhadas contigo, os jogos de sedução, o dar de um dar tão genuíno e o receber de um receber tão disponível.
Queria voltar a ser criança, a tua criança, aquela que recebeste nos teus braços quando ninguém olhava e a quem disseste ao ouvido aquilo que tu sabes. Corrijo: serei para sempre a tua criança, e estarei sempre do outro lado daquela porta da qual guardas a única chave que lhe serve, que a abre.
Vem, eu prometo que fujo para que me persigas, e prometo deixar-me apanhar para te atiçar o desejo, sim, porque já não somos mais crianças. Vem, que eu volto a fugir e correrei o mais que puder para prolongar este jogo que nos mantém unidos até nas ausências...

[2012/01/13]

2 Responses to "Reminiscências"

  1. Cláudio Says:

    Muito bonito Natacha, de ti não podia esperar outra coisa… É de uma grande dedicação e entrega, a forma como descreves os afectos. Também se vive de memórias, das boas memórias pelo menos! Um beijinho e continuação de boa escrita.

  2. Natacha Says:

    Obrigada, Cláudio :) É sempre muito bom receber a tua tatuagem ;)
    Descrevo os afectos da mesma forma que os vivo e acho que nem faz sentido de outra forma :)
    Memórias, sim... tantas e tão boas :)

    Um beijinho grande e para ti também boa continuação, espero que continues a encantar com a tua escrita que não deixa ninguém indiferente ;)

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