|devaneios no bosque| @olhares.com por duarte almeida



Loreena Mckennitt - The two trees

Anabelle era uma menina doce, de cachos dourados no cabelo e muita vida nos olhinhos cor de amêndoa. Na aldeia todos a conheciam e ao seu encantamento pelo bosque. Bem que tentavam dissuadi-la de se embrenhar por ele, mas Anabelle era destemida, e guardar com ela um segredo tão especial era motivo mais que suficiente para lhe disparar a adrenalina a cada nova investida pelo verde sombrio daquele bosque, para ela encantado, onde cresceu.

Sorria, divertida, quando os mais velhos lhe contavam as Lendas antigas sobre aquele Bosque, onde vivia uma bruxa muito má que esperava por alguém que se aproximasse para lançar os seus feitiços. Costumava contrapor de que não existia nenhuma casa no bosque e que, como tal, não seria possível viver ali alguém, bruxa ou não. Como em qualquer bosque que se preze, neste também corria um riacho que a determinada altura moldava uma lagoa com uma pequena cascata. O Sol dificilmente entrava naquele bosque de árvores frondosas, cheirava a musgo, os cogumelos eram imensos e os medronhos, no Outono, surgiam para pincelar a cadência de verdes com o seu tom amarelado até se tornarem completamente escarlate, proporcionando aos olhos ávidos de Anabelle um espectáculo a que mais ninguém assistia, pois mais ninguém entrava naquela zona do Bosque, ou melhor, mais ninguém além dela própria e de uma amiga muito especial… Faye. Bom, talvez exista uma pequena imprecisão nesta minha afirmação, porquanto Faye não entrava no bosque, antes dele nunca saía.

Faye era de facto uma pessoa muito especial, também ela parecia fazer parte daquele bosque, nele nascida, era como aquele musgo, aqueles cogumelos, era harmonia, era a simbiose mais que perfeita entre ser humano e natureza na sua forma mais pura. Anabelle descobrira Faye por acaso numa das suas muitas incursões pelo Bosque ainda menina. Um dia, enquanto observava intrigada um carreiro de formigas junto à lagoa que descobrira recentemente e onde cedo percebeu podia tomar banho nas águas límpidas, ouviu um ruído estranho proveniente da cascata, e se ao princípio pensou ser o barulho da própria queda de água, logo percebeu que aquele som algo metálico vinha mais de dentro… De dentro dela própria surgiu um “Está aí alguém!?” surpreendendo-se a si própria, pois nunca antes tinha emitido qualquer som no bosque, além dos murmúrios que entoava nas suas conversas com os bichinhos. Enquanto fazia a pergunta o coração disparou, mas não sentiu medo, e encarava a cascata com um ar de quem exigia uma resposta. Como que por magia, de dentro da cascata, rasgando a água na sua queda, surgiu uma mulher.

Era alta, muito morena de cabelos negros escorridos pelas costas. Não era bonita, longe disso, embora os olhos verdes, talvez fruto do ambiente que a rodeava, sobressaíssem, não sei se pela cor se pelo brilho. Faye disse-lhe: “não tenhas medo!”. Anabelle estava completamente siderada com aquela nova personagem na história que ela própria construía no seu bosque encantado. Seria desta mulher que os mais antigos lhe falavam? Faye parecia não ter idade, podia ser intemporal e viver para além do tempo. Anabelle respondeu que não, que não tinha medo, e aproximou-se ainda meio incrédula.

A partir dali desenvolveu-se entre elas umas relação de cumplicidade muito especial. Faye contou-lhe que sempre vivera ali, por detrás da cascata, nascera ali e nunca conhecera sequer a aldeia pois a sua mãe contara-lhe que por lá viviam seres muito estranhos, com hábitos estranhos, tinha-a avisado mais que muitas vezes de que nunca se deveria aproximar da aldeia. Ali era o seu Mundo, ali aprendera tudo o que sabe. Por seu lado, Anabelle contava-lhe o que se dizia na aldeia acerca da bruxa má que viveria no bosque e as duas riam divertidas daquelas pessoas que nada sabiam.

Faye alimentava-se do que a natureza lhe proporcionava e aprendera todos os segredos e truques para lidar com o que para os leigos seriam armadilhas como sementes ou cogumelos venenosos. Cuidava de todos os animais daquele bosque, desde as formigas até às aves, como se fossem sua família, interagindo de uma forma singular com cada espécie. Os bichos retribuíam toda aquela devoção proporcionando-lhe companhia, aconchego. Com a convivência, acabou por transmitir todos os ensinamentos a Anabelle.

Por sua vez, Anabelle que por esta altura já era uma jovem mulher, tinha conseguido junto de sua avó, o apoio que necessitava para abrir uma pequena loja na aldeia onde se vendiam toda a espécie de chás, algumas aguardentes, umas essências, que tinha aprendido a criar com Faye, bem como era solicitada por todos para umas consultas sobre os males de que padeciam, pois acreditavam que Anabelle tinha um dom natural para curar através de ervas e mezinhas caseiras. Mal sabiam os habitantes daquela aldeia, de que Anabelle não tinha nenhum dom natural, antes transmitia todos os ensinamentos daquela bruxa que vivia no bosque onde ela gostava de se perder. E assim, por interposta pessoa, Faye conseguiu fazer com que o povo da aldeia abrisse mais um pouco a mente no que se relaciona com a natureza e o que ela pode proporcionar, mas nunca foi seu desejo tornar-se conhecida, ou sequer que soubessem da sua existência.

E assim, na aldeia de Anabelle, a vida corria tranquila, o Bosque continuava sombrio e belo como só Faye e Anabelle o conheciam, pois para todos os demais, nele vivia uma bruxa má, sempre pronta a lançar um feitiço…


[2011/02/12]
Posted by Picasa

16 Responses to "Uma bruxa diferente"

  1. pinguim Says:

    Muito belo.

  2. Natacha Says:

    Obrigada, Pinguim :)

    Boa semana para ti!

  3. Ametista Says:

    Simplesmente maravilhosa a tua história.. consigo situar-me no tempo e no espaço, imagino os lugares e as personagens..
    Adorei!

    Um grande beijinho :)

  4. Natacha Says:

    Obrigada, Leonor!

    Sabes, faz parte do meu imaginário uma gruta por detrás de uma cascata :) Também eu vivi o texto conforme o ia escrevendo e isso é fantástico :)

    Um grande beijinho ;)

  5. Moon Dreamer Says:

    Fiquei com vontade de deambular por este Bosque, agora que sei que a sua habitante nada tem de temível! :)
    Adorei a história! :)

    Moon Dreamer

  6. SDaVeiga Says:

    Está muito boa esta história Natacha, de tal maneira que só posso dizer que espero que a Annabelle abra uma filial na aldeia da Sãozinha! ;-)

    Boa semana.

  7. Natacha Says:

    Obrigada Moon Dreamer, pela tua tatuagem!
    Vamos guardar este segredo connosco para que o Bosque possa permanecer encantado ;)

    Boa semana :)

  8. Natacha Says:

    Boa Sónia, já me fizeste rir!
    Está mais que combinado, estou certa de que a Anabelle e a Sãozinha se vão dar muito bem ;)

    Boa semana para ti também :)

  9. Butterfly Says:

    de ti não esperava outra coisa que não fosse um belissimo texto:)

    beijinho

  10. Natacha Says:

    Muito Obrigada, Cláudia. Tem sido uma agradável surpresa esta minha incursão no mundo fabril, a todos os níveis!

    Um beijinho grande

  11. Cláudio Says:

    Muito bonito… É assim mesmo, quando estamos embrenhados nos bosques encantados que criamos, há sempre uma «Anabelle» que nos invade o verde e se banha na nossa cascata mostrando-nos que as emoções e sensações são muito mais profundas quando partilhadas.

    Continuação de boa escrita!

  12. Natacha Says:

    Cláudio,

    Até num "simples" comentário não deixas de ser poeta!!... e ainda por cima, tens toda a razão no que dizes :)

    Um grande bem haja para ti... e um beijinho, obrigada pela tua presença!

  13. ónix Says:

    Pois é... também consigo imaginar o lugar e o seu cheiro e ao ler-te a imaginação voa.
    Tudo a correr bem na tua vida.

  14. Natacha Says:

    Muito Obrigada Ónix,

    Pela tatuagem e por gostares :)

    Um beijinho e boa semana

  15. Lusbelo Says:

    :* E há tantos bosques destes a cerca-nos, nos quais receamos entrar... sublime como sempre. Bjssssssss

  16. Natacha Says:

    Fernando :) Saudadinhas muitas :*

    Tenho os meus medos, os meus receios, mas confesso que perante o risco, o desafio, sou pessoa para arriscar :)
    Às vezes não corre lá muito bem, mas pelo menos tentei, né? :)

    Obrigada, muito obrigada e dois beijos a dividir aí por casa <3

Enviar um comentário