Shadow on the wall - Brandi Carlile

"Minha Amada,
Ouve, é a minha alma que te escreve. Este papel esconde a minha vergonha, mas também será ele que, finalmente, me revelará perante ti. (...) Sempre tivera medo que desestabilizassem a minha tristeza, acreditava que nela estavam a minha paz e a minha segurança, por isso me conformei, contente, com o que a vida me entregou. (...)

Devo confessar-to. Continuo a ter medo. Mas este é um medo diferente. Fizeste-me ter consciência dos meus vazios; contigo, iniciei uma procura interior que não pára de ferver dentro de mim e para a qual não estou sequer certo de encontrar uma solução. Mas comecei a andar. Garanto-te que a minha alma é melhor do que eu, porque a pressinto limpa e nova para ti. Espero que não seja demasiado tarde. Nas minhas tantas noites de insónia, o céu ensinou-me que há um momento em que o muito tarde se pode tornar, para nós, em muito cedo. É apenas um instante que se apaga e acende numa suave centelha; quando a noite agoniza nos braços do primeiro raio de luz nascente. Espero que este seja esse momento.

Minha amada Estrella. Sou casado. Há dezoito anos decidi partilhar a minha vida com uma mulher maravilhosa que julguei amar com loucura. Os nossos dias foram-se congelando entre as neves do silêncio e hoje, com dor, verifiquei que sobrevivi ao frio da nossa relação aquecendo-me nos restos de gestos que restavam dos nossos primeiros anos. Contraí com ela um compromisso de amor eterno que hoje me deixa imobilizado em relação a ti porque, sabes?, nestes dias de reflexão profunda, dei-me conta de que quanto mais fiéis somos a nós próprios, mais infiéis podemos acabar por ser aos outros. (...) 
Fui educado na fria contenção, na responsabilidade e no bom comportamento, embora à custa de sacrificar os meus sentimentos mais sensíveis, porque tens que saber, amada Estrella, que a sensibilidade não é uma qualidade que pertence apenas às mulheres. Hoje, confesso-te, não me envergonha verificar que sou um ser sensível. Durante toda a minha vida, os meus sentimentos mais íntimos estiveram a procurar vias de escape para esconder ou libertar as minhas dores e prantos. Graças a ti, nestes dias recuperei, ainda às escondidas, as minhas lágrimas.

Tive um pai que não descansou enquanto não julgou ter castrado a totalidade dos meus sentires, transformando-me num homem de bem - um verdadeiro orgulho para a sua masculinidade - fazendo-me um infeliz. Não o culpo; à sua maneira, pensava que me estava a dar o melhor que tinha. No fundo, somos todos o produto das educações recebidas pelos nossos antepassados, e a mim coube-me como herança a contenção do meu sentir. Durante anos, vivi seco; sedento de vida e seiva que, compreendo agora, só podem sorver-se sentindo a vida com plenitude, lutando por satisfazer os desejos. Isto, que parece simples, ignorava-o até que te conheci.(...)

Deste-me asas e alegria; vontade de rir e chorar. Provocaste um renascimento que fez florir os meus dias vazios. Agora, quero aprender tantas coisas, só para tas ensinar... analiso os pores do sol e as fases lunares. Recolho as folhas caídas das árvores e observo a perfeição da sua estrutura. Descubro o voo das gaivotas e o canto dos estorninhos. Volto a contemplar o mar com olhos novos.

Tudo me parece fácil. Qualquer coisa que faça, por mais banal que seja, dá-me prazer. Entrei num estado de consciência surpreendente. (...) Se tivesse de me definir numa palavra, diria: efervescente. Sim, é assim que me sinto desde que te conheci. Ajudaste a simplificar a minha alma. Tudo o que me deste fez o meu coração transbordar de prazer. Fizeste-me sentir uma fadiga de amor desconhecida. Devo parecer-te um homem estranho, dado que não procurei em ti o teu corpo, embora tenhas sentido bem a loucura que a tua presença provoca na minha pele. Existe tanta sensualidade em cada poro do teu ser, que me acorrentei ao teu corpo sem ainda me ter esvaziado nele.

(...) O meu coração e a minha razão não se pôem de acordo. (...) quando regresso ao quotidiano e à rotina dos meus dias, levantam-se como muros todos os meus impedimentos. Olho para a minha mulher e sei que ela não teve culpa das minhas frustrações, mas assim como contigo me sinto fluído, com ela ainda não posso abordar as minhas verdades. Sei que um dia esses muros acabarão por desmoronar. Só te peço tempo e fé, poderás dar-mos?

Minha amada criança. Nestes longos dias de espesso silêncio, os teus olhos guiaram-me com a sua luz, iluminando as minhas trevas. A tua sombra, colada ao meu corpo, acompanhou os meus suores. Não deixei de estar em ti um único instante. Penso que do mais dissonante silêncio pode brotar a música mais bela. Sinto que esta separação me fez tomar plena consciência do que pode ser querer ou amar. No querer há ânsias e desejos. No amar, apenas o desejo do bem à pessoa amada.

Agora já sei que, se não te tivesse, continuaria a amar-te. Porque o amor não pode ser posse. Verifiquei-o ao ter-te sem te ter. Acima de tudo, quero que saibas que te amo, assim, sem mais nada. Mas, como simples mortal, também quero que saibas que te desejo com toda a minha alma. Tiraste-me o medo de viver. Não sei o que nos espera, mas sinto que contigo vou começar de novo uma caminhada mais plena e intensa. Agora já sei que tenho uma alma. Tu revelaste-a perante os meus olhos; reconhecendo a tua, descobri a minha.(...) 


Vem, aproxima-te mais para te tocar a alma. (...)

Ângela Becerra in Amores Negados


[2011/12/27]




Merry Christmas - Coldplay


Lembro-me de correr as escadas desgovernadamente na manhã daquele 25 de Dezembro de um qualquer ano de finais dos setenta. O salão da casa que nos havia sido cedida pelos patrões emigrados de uns familiares, parecia aos meus olhos o salão de um palácio real. Era como viver uma vida de princesa na personagem da gata borralheira. O fausto do ambiente, a grandeza da casa, eram facilmente realçados pelo frigorífico que era nossa pertença e onde cabiam quase todos os nossos bens, bem como todos os nossos sonhos. 
Bom, na realidade, como criança que era, eu tinha sempre a capacidade de sonhar sempre um pouco mais além. Este é o primeiro Natal que as minhas memórias longínquas registam.
Que bom que é ser uma criança no Natal. Ser simplesmente criança, poder pedir do fundo coração aquilo que mais se deseja, quando o que mais se deseja é ter o que quer que seja embrulhado debaixo da mágica árvore de Natal, junto ao sapatinho que havia sido estrategicamente colocado ali para o efeito.
Ser criança no Natal é não sentir culpa por se desejar ter algo que é impossível ter. Ser criança no Natal é poder sonhar e criar um breve momento de ilusionismo. É, ao mesmo tempo, oferecer ao adulto que cuida, que cria, que ama, a sensação de realização, ao ficar-se feliz por desembrulhar uma boneca de pano, quando nos sonhos mais íntimos se desejou ter aquela boneca que nunca se viu a não ser, precisamente, nos nossos sonhos mais íntimos.
Quando cheguei ao fundo das escadas, parei extasiada pelo que acontecia debaixo da árvore de Natal. A minha memória não registou mais nada daquele cenário a não ser a árvore, os presentes e eu. E é assim que gosto de recordar, sem culpas, porque as crianças nunca serão demasiado crescidas para sonhar com presentes debaixo da árvore de Natal, as crianças nunca serão demasiado crescidas para perceberem se aquilo que mais desejam é visto como materialismo, porque sempre no fundo do coração de uma criança, um desejo é apenas um desejo, um sonho é apenas um sonho e cabe àqueles que lhes cuidam, que lhes amam, serem a balança que regula a sensatez.
Hoje é diferente, hoje estou do outro lado. Hoje sei que o desejo mais intimo da minha cria não pode ser embrulhado e colocado debaixo da árvore de Natal, por muito dinheiro que houvesse. Nos Natais de hoje é impossível não viver uma culpa, mas é gratificante ver como uma criança é sempre uma criança e fica sempre tão feliz com o que quer que seja que esteja embrulhado debaixo da árvore de Natal...


[2011/12/25]

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O Tatuagens deseja a quem vai passando, mais ou menos silenciosamente, e a quem vai deixando o seu contributo de maneira a que este seja um lugar cada vez mais marcado na minha alma, um Feliz Natal.
Que no meio das tormentas reencontremos neste Natal as verdadeiras essências. 

Obrigada a todos e até já...

[2011/12/24]


A piece for you - Meaghan Smith

Gosto de manter aberta a janela da Esperança. 
Não é de forma alguma uma ilusão camuflada, não é um capricho e tão pouco é uma mania. 
Prefiro pensar sempre que quando as janelas estão abertas o ar se renova, as essências perduram e as futilidades saem voando. 
Tudo o que de facto me é importante fica sempre retido em mim, mesmo se a janela está aberta, e mesmo o que, em liberdade, decidiu partir e voar, acaba sempre por regressar quanto mais não seja porque vive dentro de mim. Talvez porque um dia lhe tenha dado Esperança, a janela aberta permite que essa Esperança a mim retorne, sempre de forma livre e com uma vontade renascida de voar cada vez mais alto.
Não existe o frio a entrar na janela da Esperança, não existe o breu lá fora. A janela da Esperança é sempre virada para a Primavera da vida, mesmo sob a tempestade mais violenta. 
Só assim conseguimos sentir o calor que nos corre nas veias a cada Esperança concretizada, ou o frio na barriga pela ansiedade da Esperança. Só assim conseguimos os aromas perfeitos da Esperança revisitada.
A minha janela aberta para o mundo da Esperança já viu gente partir e gente chegar. Um dia, pela minha janela aberta entrará quem queira não mais sair. 
Nesse dia a Esperança renova-se, mas a janela manter-se-à sempre aberta...

[2011/12/22]

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13:30


Chico Buarque - Pedaço de mim

São milhares de gestos que se consomem,
saliva e hormonas que se revolvem,
num único e insano momento de glória,
quando os nossos corpos em sintonia se envolvem,
e de tudo o que vem à minha memória,
não posso jamais esquecer,
que o vôo mais alto foi ao teu lado,
o bater de coração mais acelerado,
a emoção mais forte,
as lágrimas mais deliciosas,
os frios e os medos, dores e felicidades,
tudo, mas tudo, tem outro sabor,
um sabor especial e único,
sabor a intensidade, sabor a eternidade,
sabor a nosso-estranho-amor... partilhado.
Loucura, simplesmente...

[2011/12/21]
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