(...) 

I'm not drowning just a litle dizzy
floating with you seems to be so easy
so come on you better act fast, or swim slow.

Winter's coming to this town
and my pool is closing down, for you.

On the surface it looks bright and clear
but deep down there's room for all my fears
melting slowly, as you go
I'm not waiting for another swimmer
life's an ocean for a diving dreamer
so come on you better act fast, or swim slow.

(...)
[2011/12/10]




 "Não percam de vista a esperança mas mantenham os pés no chão"




Sara era uma entusiasta recém licenciada professora. Tinha finalmente cumprido o seu sonho de menina, desde os tempos em que brincava às escolas com os seus primos. Como era a mais velha, calhava-lhe sempre o papel da professora, e ela encarava o seu papel muito a sério. Hoje, atirando a sua capa, repleta de fitas, ao ar, sentia bem dentro de si que, agora sim, a sua missão iria começar.
Era com alguma mágoa e tristeza que observava os jovens da sua idade, alguns mais velhos e outros mais novos, e a forma como eles cometiam atentados persistentes à língua portuguesa, que ela considerava um dos maiores patrimónios que ainda restavam.
Estava decidida a fazer o que estivesse ao seu alcance para defender a língua portuguesa dos terroristas modernos, nascidos, quase todos, da era internáutica. Para ela, que tinha baseado o seu trabalho de fim de curso nesta particularidade dos tempos modernos, era claro que esta tendência para desconstruir a nossa língua e espoliá-la do que de mais profundo e intenso a veste, tinha tudo a ver com a internet, e a necessidade cada vez mais premente, quase fervente, da rapidez de contacto. Uma quase loucura na forma como se quer fazer chegar ao outro, ainda que distante, o que quer que seja. Então vieram as substituições de alguns conjuntos de letras pelos K, ou pelos X. Estas são talvez as mais evidentes. 
Para Sara, não seria, de todo, um problema que se usassem este tipo de métodos para comunicar por telemóvel ou internet, desde que primeiro se assegurasse de que quem os utiliza sabe como de facto se escrevem as palavras e não corressem o risco, e para ela a vergonha, de ir para um teste escrever assim também. Havia que incutir nas gerações mais novas a necessidade de saberem discernir em que contextos podiam utilizar as diversas formas de expressão e, preferencialmente, sem maltratar a nossa língua. Calão sempre existiu, não é por aí, mas criem-se raízes de amor à nossa língua nos jovens. Para além de tudo o mais, a Sociedade corria o sério risco de se tornar uma sociedade composta por eremitas que já não tinham capacidade de interagir a não ser através de um teclado ou de um ecrã, fosse ele de um PC, de um IPad, de uma tablet, de um telemóvel, enfim... de um sem fim de novas tecnologias colocadas ao dispôs dos mais novos em catadupa e num tão curto espaço de tempo. 
Era por tudo isto que Sara já tinha planeado, em conjunto com mais dois colegas da faculdade que com ela hoje comemoravam a vitória na primeira caminhada em direcção ao fim maior: Defender a língua portuguesa, formarem uma Associação. Assim, a par da sua já mais que importante missão de ensinar nas salas de aula, promoveriam a defesa da língua mãe organizando eventos relacionados com escrita, leitura, de uma forma que os participantes mal se aperceberiam do que realmente estava por detrás de todos aqueles desafios. Esta associação era vocacionada para todos os jovens entre os 10 e os 20 anos. Era esta a faixa etária que corria um maior risco de vir a não saber utilizar a língua portuguesa da melhor forma.
Naquela tarde de fim de agosto, tinham combinado o encontro numa agradável esplanada para ultimarem os preparativos para o inicio do ano lectivo. O colégio onde trabalhavam e que agrupava todos os níveis de ensino num espaço enorme e bem cuidado tinha acedido a que a Associação se sediasse numa das salas disponíveis e sem utilização. Era ouro sobre azul. Assim poderiam criar actividades transversais a várias idades que competiriam entre si. Não seria de todo agradável para um aluno do 12º ano ser batido por um do 6º, certamente e este tipo de disputa saudável em torno de um bem comum fazia todo o sentido e iria atrair cada vez mais participantes.
A divulgação iria ser feita através de e-mail a todos os encarregados de educação, mas também pelos próprios organizadores que tentariam durante as aulas de apresentação assediar os alunos a inscreverem-se. Nada se pagava mas pretendia-se que o retorno fosse um imenso orgulho no nosso português. 
Sara estava numa dessa aulas de apresentação, com alunos do 7º ano. Depois de esclarecer de que se tratava a Associação, uma aluna, Clara de seu nome, perguntou: 
- E qual o nome da Associação? 
- Em defesa da Língua Portuguesa - respondeu-lhe Sara, sorrindo.
- Boa s'tora. buéda fixe.  
A professora fez-lhe um ar consternado e disse:
- Parece que temos a primeira associada desta iniciativa, já que tão bem representa aquilo que não se pretende, e piscou-lhe o olho - a turma riu.


Em Defesa da Língua Portuguesa -  Entrada livre a todos os que admiram aquela que Fernando Pessoa tão bem descrevia como Pátria:

(...) Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa.

Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.I. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982.


Escrito para: Fábrica de Histórias
[2011/12/08]
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(...)
E a calma a aguardar lugar em mim
O desejo a contar segundo o fim.
Foi num ar que te deu
E o teu canto mudou
E o teu corpo do meu
Uma trança arrancou
O sangue arrefeceu
E o meu pé aterrou
Minha voz sussurrou
O meu sonho morreu 
(...)

[2011/12/05]




Neh Nah Nah Nah - Vaya con dios


Se há coisas de que eu gosto nesta vida uma delas é, sem dúvida, viajar. Viajar é, ao mesmo tempo, uma imensidão de aprendizagens, uma aculturação constante e um divertimento sem comparação. Não gosto de viajar sozinha, mas por circunstâncias da vida, as últimas viagens que fiz fui acompanhada apenas por mim própria e por todos os "Eus" que cabem dentro de mim.
Na minha última viagem a Paris vivi uma situação inusitada. Hoje quando penso nela ainda sorrio.
Conheci Jaques num bar na Boulevard Saint German, onde trabalhava como entertainer fazendo stand-up-comedy em versão francesa, o que só por si parece ser algo muito estranho. O meu parco francês era suficiente para ir percebendo as piadolas que ia debitando para gáudio de quem o ouvia. Não podia negar, Jaques tinha bastante piada naquilo que fazia. Durante um dos intervalos da actuação e ao ver-me no bar sozinha, aproximou-se sorrindo, confesso que tinha um ar cómico e muito pouco credível, e perguntou-me se eu dançava. Bom, eu entrei no espírito da coisa e lá lhe respondi no meu francês fraquinho fraquinho que dançar eu até dançava, se houvesse música. Abanou a cabeça e estendeu-me a mão dizendo que não era necessária música e ainda não sei bem onde estava com a cabeça ou se era a sangria a falar sozinha, lá lhe entreguei a minha mão e começámos a dançar uma música que simplesmente não tocava. Nada mais dissemos e quando chegou a hora de voltar ao palco, Jaques devolveu-me ao lugar por preencher no bar e lá foi, piscando-me o olho. 
Aquele episódio foi ao mesmo tempo estranho e especial. Fui para o Hotel naquela noite com o Jaques no pensamento. Dormi o sono dos justos e despreocupados e no dia seguinte tinha planeado ir à Place du Tertre. Tinham-me falado imenso desta Praça lá no topo pertinho do Sacré Coeur, em Montmartre. Ali se juntam os artistas para pintar e exibir as suas obras, aproveitando-se do facto de ser ponto turístico para inflacionarem o valor das obras. 
Vesti o meu melhor espírito de turista e resolvi que subiria Montmartre a pé desde o Moulin Rouge. A meio do caminho tive de parar para tentar perceber se estava a ver bem, seria mesmo Jaques? Chamei-o, mas ele pareceu não ouvir. Voltei a tentar, desta vez ao mesmo tempo que lhe tocava no ombro. Ele virou-se e olhou-me como se nunca me tivesse visto. Sorri, mas a expressão dele manteve-se inalterável. Primeiro achei que ele estava a brincar, mas depois percebi que não, de facto o Jaques não me estava a reconhecer e pareceu até estar a ficar já meio zangado e aborrecido com a minha abordagem, mesmo depois de eu lhe ter explicado entre gestos e palavras que era a pessoa com quem ele tinha dançado no Bar da Boulevard Saint German. Frio, o olhar daquele homem era completamente frio. Resolvi desistir  e continuar o meu percurso, mas já sem a animação de antes. Percorri a Place du Tertre e misturei-me com os artistas, fazendo perguntas e dando o meu parecer, do mais puro sentir que me suscitavam as telas. Depois da volta completa dirigi-me ao Sacré Coeur. Cá em baixo onde começa a escadaria via-se um personagem envolto em arranjos florais imensos e eu nem queria acreditar: Jaques.
Por momentos achei que estaria a ficar maluca, e que a sangria do dia anterior me tivesse deixado meio alucinada. Discuti comigo própria se havia de me dirigir ao terceiro Jaques que encontrava em dois dias mas acabei por decidir visitar primeiro a Basílica, quem sabe me iluminasse aquele contacto com o divino. Ainda voltei a espreitar aquela espécie de mendigo mas segui o meu caminho. Estava decidido, à noite voltaria ao bar e tiraria todas as minhas dúvidas.
Assim foi, saí do Hotel e enfiei-me no Metro. Não gostava sinceramente de andar de Metro, mas era a melhor forma de chegar ao bar. Ainda era cedo e estava muito pouca gente. Também não via Jaques em lado algum. Perguntei ao empregado do bar se haveria stand-up naquela noite ao que ele me respondeu que sim. Sorri e pedi um daiquiri. o bar ia-se compondo e Jaques surge então em palco.Tinha uma aura sobre si e todo ele era energia pura e gargalhadas sem fim. Naquela noite, mais que na anterior, estava cheio de piada, humor inteligente que encantava o público. Fiquei à espera sem qualquer certeza comigo, mas cheia de esperança de desvendar aquele mistério. Como que ouvindo o meu apelo interior, Jaques veio no intervalo ter comigo e fez a mesma pergunta do dia anterior. 
- Dança? Mas desta vez a resposta foi outra: 
- Dançar eu danço, mesmo sem música, mas antes disso explica-me. Ele olhou-me, intrigado e perguntou: 
- Explico-te? O quê? Porque quero dançar contigo?
- Não, porque fingiste não me conhecer em Montmartre e como chegaste tão rápido à escadaria do Sacré Coeur? - Naquele momento Jaques olhava para mim como se eu viesse do espaço, mostrando uma expressão muito engraçada de tão estranha.
- Mas que dizes, não estive nesse sítios, não hoje! - Mas parou ali mesmo e desatou a rir à gargalhada.
- Humm, qual foi a parte da minha pergunta que teve assim tanta piada?
- Ele chorava já e disse-me: Estou a ver que te cruzaste com os meus irmãos.
- Os teus irmãos?
- Sim, gémeos - e continuava rindo.
Corei, tenho a certeza de que corei, estendi-lhe a minha mão e disse: - Porque esperas? Leva-me a dançar esta música que não toca.




[2011/12/04]
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(...)Fica em mim que hoje o tempo dói
como se arrancassem tudo o que já foi
e até o que virá e até o que eu sonhei
diz-me que vais guardar e abraçar
tudo o que eu te dei (...)

[2011/11/30]