Estes caminhos por onde caminhamos juntos podem ser íngremes, escarpados e até aparentemente inacessíveis, mas tu sabes que de mãos dadas com o Amor, todo e qualquer caminho se torna caminhável, todo e qualquer lugar se torna tangível.
Não falemos sobre a cadência dos suspiros nos tons mesclados do mar.
Não falemos dos arco-íris que nascem nas encostas da Serra deslizando até ao mar.
Os pássaros livres que dotam a paisagem de belos trinados, doces melodias, acalentam a alma dos apaixonados e ao longe, o marulhar inebria todos os meus sentidos. Fecho os olhos, sinto-te em mim.
Dá-me a tua mão.
Não são fáceis os caminhos da vida, mas são infinitamente compensadores todos os passos do Amor. Por vezes correm apressados, não evitando uns tropeções, e noutras calmos, caminham paulatinamente no compasso do bater do coração. São ansiosos, são pacientes, são essencialmente crentes, de que no caminho por onde andam, as emoções mais verdadeiras não se abandonam, e os sentimentos mais puros perduram.
Dá-me a tua mão.
Eu guio-te, como aquele farol num dia de tempestade. Não sei se para um lugar mais seguro, mas garantidamente para um lugar mais intenso, porque quando há amor, não há redes, apenas uma corda bamba onde nos equilibramos e onde tudo é à flor da pele. E depois, quando estiveres no meu colo, e quando os teus olhos que suplicam amor se perderem nos meus, eu vou perceber, e tu vais perceber, de novo, o que é sermos um do outro, um no outro... para sempre...
Tua
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Sara era uma jovem mulher, bonita, com uma áurea especial em torno de si, que atraía a atenção, o interesse, ainda que não fosse nada propositado. Já há algum tempo que se havia tornado numa mulher mais triste, um desgosto amoroso tinha subtraído à sua face aquele sorriso que lhe conferia uma beleza singular. Sara perdera o brilho, sim, é isso mesmo, a beleza continuava lá, apenas vestida de uma opacidade castradora. Sara perdera todo o brilho.
Arrastava-se nos dias, completamente perdida na melancolia. Sérgio tinha sido o grande amor da sua vida, era a única certeza que trazia consigo. A decisão de ruptura tinha sido sua, e sentia-se muitas vezes apontada pelos amigos por ter permitido que aquela relação terminasse assim, mas ela tinha os seus motivos. Não havia sido de ânimo leve que naquele dia de março o tinha olhado nos olhos para lhe comunicar a sua decisão.
Sérgio ficou sem reacção, ela sabia bem que ele não iria pedir-lhe para reconsiderar. Ele sabia bem o que se passava e como ela tinha toda a razão. Pesava-lhe nos ombros a responsabilidade por uma decisão que não era sua mas que tinham sido as suas atitudes a proporcionar. Olhou-a também ele apagado, tentou esboçar um sorriso que não nasceu, e ela, completamente embaciada pelas lágrimas, fechou a mão com força e partiu...
...
O tempo foi passando, e com ele a clareza de um amor que se deitou no lixo, a falta de uma cumplicidade genuína que pairava naturalmente sobre aqueles dois caiu sobre si - a saudade apoderou-se da sua alma provocando uma dor profunda. Sérgio cresceu, mais em dois meses que em dois anos. A confiança sempre foi o alicerce mais seguro de qualquer relação e ele não tinha sido suficientemente sábio para perceber isso e traiu essa confiança por nada. Trazia em si uma tristeza invisível que lhe amargava os dias. Sabia que Sara estava bem, sabia que ela, com a sua força interior iria ficar bem, mas sabia também que perdera o brilho e o gosto pela vida. Ele também se sentia assim. Não estava orgulhoso da sua atitude e o seu tempo era agora utilizado no sentido de perceber o que poderia fazer para corrigir o que de mal tinha sido feito.
Naquele dia, Sara passeava o seu golden no parque de sempre, ele sabia que a encontraria ali. Lá ia ela, linda, porém apagada, com a trela do cão numa mão e a outra mão fechada. Todos comentavam que Sara mantinha sempre aquela mão fechada. Aproximou-se dela e ela olhou-o como sempre fizera - nos olhos. Sérgio sabia que não adiantavam grandes argumentos com Sara. Ou se ia directo ao assunto ou qualquer rodeio apenas a faria exasperar.
- Perdoa-me, meu amor.
Ela perdeu uns bons minutos analisando aquela palavra dentro dos olhos dele. Nesses minutos, toda a cumplicidade surgiu de novo, porque a energia emanada daquele olhar lhe asseguravam a veracidade do pedido. Ele não sorria, mas num instante Sara largou a trela, e o cão correu contente e livre, e a outra mão, que por cerca de dois meses se mantivera fechada, abriu-se para destrancar o sorriso e o brilho que lhe haviam faltado naquele tempo.
Que linda estava Sara agora, o seu brilho iluminava também a alma de Sérgio que deixou cair uma lágrima ao mesmo tempo que lhe beijava o sorriso e sussurrava:
- Obrigado...
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(*) "Automat" de Edward Hopper
Fim do dia - Mafalda Veiga
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